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Felipe Belao Iubel

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Peculiar mistura de boas qualidades e excelentes defeitos.
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O Fantástico Mundo de Felipe Belão Iubel

O mau humor sarcástico e a intensidade fantástica do meu alterego torto.
11/4/2009

“Back to the land of sugarcane”

 

 

 
“Driven by a desperate hunger
To the dark of the neon light
Oh the heart is a lonely hunter
When there's no sign of a love in sight”
Grayson Capps
 
Eu não espero discorrer sobre amor em mais nem mesmo um texto. Quero apenas escrever sobre voltar para a terra em que tudo parecia mais fácil, a morte mais distante e os cabelos mais longos. Quero voltar para um tempo em que sonhar era preciso, precioso e possível. Quero mais querer, não apenas em verbo banal e repetido em meu texto. Quero querer no sentido mais pueril que se consegue obter na vida.
 
Parece que o tempo passa e as noites viram dia muito rápido. A rotina consome meu encontro comigo mesmo e deixo para depois e para amanhã. Mas não sou mais o menino que poderia ser tudo na vida. O destino me ofereceu a possibilidade de chegar mais perto de pessoas semelhantes e minha escolha – meu constante não ao trivial – levou-me para um isolamento de olhares. Querendo eu mesmo ou não desejando jamais, acostumei-me tanto com o escuro do meu quarto e da sala de parede vermelha, aquário vazio e das canções só minhas daquele violão quebrado de logo que chego em casa depois de cada dia cansativo de trabalho e aulas. Acostumei-me a tal ponto de me perder na frase, pois ela me parece enfadonha e longa demais para ser para sempre.
 
Perco-me nas minhas notas, minhas próprias palavras e insisto em escrever sobre um eu mesmo que não sei direito quem é. Sou o pouco que conheço e acho curioso pensar o que serei em anos. Já não serei mais o político keynesiano, o cineasta do estilo italiano do Bertolucci ou o cara que foge para um velho continente qualquer. Já não serei mais um pai antes dos 26 anos, não serei tio antes dos 27 e não serei mais neto dentro em breve. Não sei mais o que serei. E o “não” se repete com o “querer”. Não, não e não. Neguei tanto que me encontro aqui, reacionário, idealista e imaginando coisas – meio paranóico, alguns diriam. Sei das coisas que jamais chegarei perto de ser e não faço idéia do que sou de verdade quando penso nos outros.
Só ouço falar, nada concreto, portanto.
 
Não sei nada dos outros. Seus olhares alheiros pouco me dizem. Seus pensamentos não são claros. Suas vidas passam pela minha, nos esbarramos. No fundo, perco-me nas paredes de cores e nas janelas fechadas ao vento. Por hoje sou uma série de coisas que não seguem ordem linear no dia. Qual hora? Em qual ordem? Me confundo no escuro da luz neon. Nem sinal do resto ou solução. Não há tempo pra nada.
“We have to go back.”
 
 
10/15/2009

Oh, Mestre! Ser Mestre! Todo semestre!

 
(foto que representa todos os alunos que já passaram pelas salas em que estive, todos que têm meu carinho como mestre e que muitas vezes nem fazem idéia disso. Todos os meus queridos alunos de: Administração, Jornalismo, Marketing, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas).
 
Não vou negar, não é do meu feitio. Não posso negar, na verdade, pois é evidente meu encontro comigo mesmo. Cada passo para dentro de uma sala de aula é como se eu chegasse mais perto de ser verdadeiramente um cara que se encontrou na vida. Não dá pra ter certeza, afinal de contas a gente muda sempre e evolui e muda mais um pouco.  A vida é um ciclo virtuoso e estou aqui para ser melhor do que fui ontem.
Porém, já nos primeiros dias como professor de alguém eu vi que gostava da coisa. Com 23 anos dei meus primeiros passos como docente de forma oficial, ou seja, foi a primeira vez que eu ouvi alguém me chamando de professor pra valer. Pra falar a verdade, no começo é assustador. A responsabilidade pesa e faz transpirar.  O pensamento vai longe e a primeira coisa que se pensa é no dia em que a gente era aluno, espero nunca esquecer isso. Espero jamais negligenciar meus sonhos como estudante, pois os tempos mudam, mas os jovens alçam vôos parecidos com os das gerações anteriores. Lembrar isso faz um professor ir além, faz pensar e agir com ainda mais vontade.
Ainda assim, umas aulas correm bem, outras são conturbadas. As turmas pensam diferentes e se comportam de formas diferentes. Os alunos têm motivações diferentes e minha primeira lição como professor foi a de aceitar os fatos. Simples assim: têm dias que eu acerto, têm dias que não. Aceitar que eu erro e me lembrar disso para melhorar sempre foi meu primeiro aprendizado.  Admitir publicamente os erros é ainda mais nobre e, como tudo que se caracteriza como tal, ainda mais difícil. Sempre busco, tento, almejo e procuro. Consigo às vezes. Tudo bem, como eu disse, a gente não nasceu para acertar em tudo, ainda mais quando se é Mestre.
O segundo aprendizado foi um que eu tinha lido num livro do Buk, mas que só fui entender de fato quando vivenciei as palavras do velho safado. Ele disse que o estudante universitário é um sujeito descente e quer ser tratado com respeito. É verdade, sabe. Alguns estudam mais, outros parecem nunca ter estudado. No fundo, todos são merecedores de respeito, independente disso. Só que, novamente, vem a realidade: nem sempre eu acerto.
Há turmas, alunos e salas que fazem a semana se arrastar. São desafiadores, difíceis e questionadores. Esses nos fazem ir além como mestres todos os semestres. Outras turmas são atenciosas e receptivas, dá até pra dizer que são humildes o suficiente para aceitar o conhecimento como base metafísica de algo maior que almejam para suas vidas. Essas turmas dão força para que todas as aulas sejam as melhores, as fáceis e as difíceis.
Não imagino mais minha vida sem essas variações. E uma das coisas que mais gosto de pensar é na qualidade individual de cada um que passa pela minha aula. Uns eu lembro o nome, outros não. Uns eu chamo mais a atenção, pego mais no pé. Outros recebem elogios. Alguns são voluntariosos e outros preguiçosos. Contudo, com a dose certa de boa vontade, não vejo mediocridade o que é uma grande qualidade comum a todos.
Assim sigo. Como mestre todo semestre. Lembro-me com carinho dos meus, tanto os da infância quanto os da universidade, especialização ou mestrado. Guardo um carinho especial para os que me ensinaram com grandes aulas e bons exemplo e reconheço a importância de todos que me mostraram defeitos e me ensinaram a ser ainda melhor. Espero deixar essa marca agora que estou do lado de cá. O lado dos docentes, dos Jedis e dos heróis que lutam todos os dias para preparar seus pupilos para serem melhores do que eles mesmos jamais sonharam em ser.
Essa é a verdadeira “melhor aula da semana”.

 

9/23/2009

O homem e seu tempo

 

 
 
“O homem é um homem do seu tempo, ou é de tempo nenhum.”
Allan Sales
 
Escreveram-me essa frase em um pedaço de papel e eu, sempre fascinado pelas folhas e suas palavras, li ávido, mas fiz de conta que não me importava. Só que, depois da hora certa, fiquei meditando sozinho sobre o assunto. Passei pelo carinho e pelo escuro que ocupavam as linhas do caderno e me concentrei na frase do cearense que eu só ouvira falar que existia.
 
Claro que o dono da tal frase discorria sobre sua obra que era como um reflexo de seu tempo. Já a remetente da frase, de forma bem menos sutil, queria me chamar a atenção para a vida que se esvai e nos carrega nos braços ou nos larga no caminho. Aparentemente é uma escolha. Minha escolha. Ou pulamos no barco, carro ou trem da vida ou ficamos sentados sozinhos nos trilhos.
 
Só que eu, como eterno insatisfeito, como o cara que sempre busca um jeito diferente de fazer as coisas, em grande parte pela clareza com que a vida se revela aos meus olhos, gosto de caminhar pelas estradas mais solitárias. Gosto de encontrar a natureza que é indiferente aos desejos humanos. Não quer dizer que eu não me atraia vez ou outra pelas escolhas mais fáceis e pelo jeito mais solto de viver.
 
Só que passei da fase hedonista e acredito em tantas coisas que me restam poucas esperanças sobre muitas.
 
Por conta disso e da maldade, têm dias que acordo com tanta indignação que não tenho nem vontade de falar.  Meu mau humor sobe pela garganta numa forma de queimação e me envolve o corpo todo de tal maneira que sigo inerte e absorto em minha rotina de semana, trabalho, luz amarela ou pálida no céu – de sol ou lua – e anos que passam com tamanha facilidade que a confundimos com o desprezo de Deus.
 
Sinto que não fui esquecido apenas porque tenho meu discernimento como escolha de vida.
 
Essa escolha me permite afirmar que sou um cara do meu tempo, do meu próprio tempo, tempo que é só meu. Pertenço aos meus valores e crenças e esse é meu sentimento de mundo. Claro que piso na bola, o tempo todo, aliás. O erro é a única coisa que garante minha sobrevivência e me aproxima do prazer. E o prazer é a última coisa autêntica da humanidade.
 
Então, minha resposta é simples.
Não sou deste ou de outro, pois sou um homem de tempo algum.
 
“Qual deles? Qual hora? Quando? Era pra responder?”
 
Se ninguém diz nada com clareza, por que diabos eu tenho que começar?!
 

 

9/10/2009

Como eu virei um cara sério e chato: um compêndio de descontentamentos


 

Vou começar pelos questionamentos metafísicos do poeta da página em branco (e do blog vazio). Eu abandonei momentaneamente e por um severo bloqueio criativo uma das coisas que mais gosto de fazer: colocar idéias soltas no papel. Aparentemente, perdi tato ou noção de paladar literário também. Tenho lido pouco. Os trocentos livros mensais foram reduzidos a períodos esporádicos de mergulho em autores profundos o suficiente para não me permitir levantar por dias, horas ou segundos.


O que importa é a intensidade, dizem. Dizem muita bobagem, o fato é esse. Aliás, falamos demais. Sonhamos demais e esperamos que o troço meio que caia no meio da estrada e que de preferência tenhamos um carro com teto solar para nem precisarmos estacionar ou nos abaixar pra pegar o troço no meio do caminho. O problema é que sempre preferi andar. A pé percorro minhas distâncias e meu pensamento vai junto meio que perdido e clamando: “escreve, vai, qualquer coisa.” Descalço, o que é pior e bem mais cheio de vida.


E passam os dias. Meu olhar vai ao infinito, encontra o horizonte e de lá volta mais triste. Uma reação simples e inevitável. Há quem diga que me escondo em minha própria caverna, ou melhor, que sou um daqueles mexicanos com o maior chapéu do mundo e que fico lá dentro e só saio para cumprir meu papel social. Pronto. Acabou o texto de volta. Assim, simples e inevitável, com mais da metade da página em branco.


O que importa é a intensidade, dizem. O fato é que dizem muita bobagem.



8/6/2009

O sol, a gripe espanhola e as fronteiras do mundo (se há simplicidade, eu caminho)



 
"Para nós, nete instante,
são as fronteiras do mundo,
e não as da rua XV,
que procuramos atingir."
Dalton Trevisan
 
 
O mundo muda e há quem note, acreditem. A facilidade com a qual nos conectamos com o que é vida nos move e se consolida em rotina que encontra sua aplicação no tempo e no giro cíclico das regras que criamos apenas para nós mesmos. A natureza não obedece nossas leis, nosso jeito de interpretar. A complexidade do humano pode ser superada pela simplicidade em qualquer instante. Por isso, ele caminhava como que sorve a essência dos dias, encontrando apenas no que é simples o suficiente para se fazer notar.
 
No quarto dia de sol – que apareceu apenas depois de meio mês de chuva ininterrupta que alagou bueiros e acabou com o humor de um povo que não já não é essas coisas em simpatia – daquele tempo de gripe espanhola, ele caminhou. Por ruas que conhecia, por cominhos que já percorrera e por sentimentos que já visitara. Tempo idos, revistos, relidos. 
 
No entanto, mais por vontade que por disponibilidade, desapareceu em pensamentos. Com base em lembranças reais e fatos imaginados, voltou à ilha de sua infância.
 
Naquela praia curta de metros de beleza entre dois morros, viu o sol dourar a areia e produzir reflexo de venha-e-pule-nessa-água no mar. Havia verde que se misturava lá no horizonte com o azul e com o cheiro de sal e energia de natureza. A água deixava mais rígida a areia que conservava por perto e as pegadas indistintas apontavam para uma habitação que respeitava o limite e as fronteiras daquele mundo.
 
Pela noite, horas idas, a lua deu suas caras e presenteou os olhos com seu manto prateado de proteção. Ele caminhava. Por praias e morros, aquele mato nascido da areia e do cheiro daquela terra de quem passa e vive por anos e milhas. Lembrança que não morre mais. “Respira esse ar.”
 
Por ali, também reinavam os vírus. No entanto, o respeito mútuo conduzia à harmonia de cheiros e vitalidade. Nada que se toque com a devida autorização tornava-se nocivo e ele caminhava. Simplesmente porque podia. Simplesmente porque havia tanto por lá. Tanto do que é simples demais para deixar passar.