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23/09/2009 O homem e seu tempo
“O homem é um homem do seu tempo, ou é de tempo nenhum.”
Allan Sales
Escreveram-me essa frase em um pedaço de papel e eu, sempre fascinado pelas folhas e suas palavras, li ávido, mas fiz de conta que não me importava. Só que, depois da hora certa, fiquei meditando sozinho sobre o assunto. Passei pelo carinho e pelo escuro que ocupavam as linhas do caderno e me concentrei na frase do cearense que eu só ouvira falar que existia.
Claro que o dono da tal frase discorria sobre sua obra que era como um reflexo de seu tempo. Já a remetente da frase, de forma bem menos sutil, queria me chamar a atenção para a vida que se esvai e nos carrega nos braços ou nos larga no caminho. Aparentemente é uma escolha. Minha escolha. Ou pulamos no barco, carro ou trem da vida ou ficamos sentados sozinhos nos trilhos.
Só que eu, como eterno insatisfeito, como o cara que sempre busca um jeito diferente de fazer as coisas, em grande parte pela clareza com que a vida se revela aos meus olhos, gosto de caminhar pelas estradas mais solitárias. Gosto de encontrar a natureza que é indiferente aos desejos humanos. Não quer dizer que eu não me atraia vez ou outra pelas escolhas mais fáceis e pelo jeito mais solto de viver.
Só que passei da fase hedonista e acredito em tantas coisas que me restam poucas esperanças sobre muitas.
Por conta disso e da maldade, têm dias que acordo com tanta indignação que não tenho nem vontade de falar. Meu mau humor sobe pela garganta numa forma de queimação e me envolve o corpo todo de tal maneira que sigo inerte e absorto em minha rotina de semana, trabalho, luz amarela ou pálida no céu – de sol ou lua – e anos que passam com tamanha facilidade que a confundimos com o desprezo de Deus.
Sinto que não fui esquecido apenas porque tenho meu discernimento como escolha de vida.
Essa escolha me permite afirmar que sou um cara do meu tempo, do meu próprio tempo, tempo que é só meu. Pertenço aos meus valores e crenças e esse é meu sentimento de mundo. Claro que piso na bola, o tempo todo, aliás. O erro é a única coisa que garante minha sobrevivência e me aproxima do prazer. E o prazer é a última coisa autêntica da humanidade.
Então, minha resposta é simples.
Não sou deste ou de outro, pois sou um homem de tempo algum.
“Qual deles? Qual hora? Quando? Era pra responder?”
Se ninguém diz nada com clareza, por que diabos eu tenho que começar?!
10/09/2009 Como eu virei um cara sério e chato: um compêndio de descontentamentos
Vou começar pelos questionamentos metafísicos do poeta da página em branco (e do blog vazio). Eu abandonei momentaneamente e por um severo bloqueio criativo uma das coisas que mais gosto de fazer: colocar idéias soltas no papel. Aparentemente, perdi tato ou noção de paladar literário também. Tenho lido pouco. Os trocentos livros mensais foram reduzidos a períodos esporádicos de mergulho em autores profundos o suficiente para não me permitir levantar por dias, horas ou segundos. O que importa é a intensidade, dizem. Dizem muita bobagem, o fato é esse. Aliás, falamos demais. Sonhamos demais e esperamos que o troço meio que caia no meio da estrada e que de preferência tenhamos um carro com teto solar para nem precisarmos estacionar ou nos abaixar pra pegar o troço no meio do caminho. O problema é que sempre preferi andar. A pé percorro minhas distâncias e meu pensamento vai junto meio que perdido e clamando: “escreve, vai, qualquer coisa.” Descalço, o que é pior e bem mais cheio de vida. E passam os dias. Meu olhar vai ao infinito, encontra o horizonte e de lá volta mais triste. Uma reação simples e inevitável. Há quem diga que me escondo em minha própria caverna, ou melhor, que sou um daqueles mexicanos com o maior chapéu do mundo e que fico lá dentro e só saio para cumprir meu papel social. Pronto. Acabou o texto de volta. Assim, simples e inevitável, com mais da metade da página em branco. O que importa é a intensidade, dizem. O fato é que dizem muita bobagem. |
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