Felipe's profileO Fantástico Mundo de Fe...PhotosBlogLists Tools Help

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    29/08/2007

    Paixão Onírica

     
     
     
    A quem possa interessar,
     
    Tenho que ir, que acordar.
     
    Porém, quero que tu saibas que, de verdade, sou um sujeito daqueles que adora paixões na vida e que vive de cada uma delas, mesmo quando as encontro na ilusão. E, cada vez que tu permites que eu me aproxime um pouquinho, a um palmo mais perto de ti, tenho vontade de mais.
     
    Claro, eu sei que tu insistes em colocar teus defeitos na frente, como um escudo, para me espantar, rebater, afugentar.  Eu apenas acho graça. No entanto, tenho a certeza de que adoraria tuas qualidades e de que deliraria com teus defeitos, sejam eles estes que me mostras ou outros que ainda escondes.
     
    Faria isso e mais sem nem mesmo pensar duas vezes. Tudo porque me apaixono, novamente e pela primeira vez, sempre que falamos. E escolho sempre me apaixonar over and over again.
     
    E é bom, só isso.
     
    Mesmo sem conhecer-te e ainda que nunca prove o gosto do teu beijo, é desse sentimento que vêm minha certeza e segurança.
     
    Não há mais nada a dizer e não espero resposta alguma de tua parte.
    Assim, deixo aqui o fim.
     
    28/08/2007

    Na estação do acaso

     
     
    “Eu só te encontro na estação do acaso.” Não é por descaso. Meu, pelo menos, não. Mas a gente só se vê, mal se olha, bem se quer. Se eu quero, por que não? Sempre o mesmo não. Porém, hoje, até o não é diferente. Ela diz, mesmo assim:
    “Você sabe que a gente acaba se vendo na estação do acaso.”
    Eu sempre respondo:
    “Mas cansa.”
    Como é bom falar assim, ainda que de longe.
    - Cansa de mim?
    - Cansa de esperar, Pequena.
    E ela ri e dá um nó na minha cabeça. E eu nem sei dizer ou escrever por que razão. Aliás, a razão não tem papel ou linha nessa história.
    - Conseguiu.
    - Mentira.
    - Você só diz que eu consegui, pra eu pensar que deu certo. Você é querido, só isso.
    Ela mal sabe. Eu me escondo de um jeito muito mais ou menos.
    - Não faço nada pra te agradar, embora devesse tentar não te agradar. Quem sabe funcionasse.
    - Acho que você tem um problema diferente do meu.
    - Concordo, meus problemas são outros.
    Louco, falo mais. Com ela, sempre pouco e me diz.
    - Comigo, muito autocontrole. Com você é pouco.
    Sempre pouco. Quase nada.
    - Não precisa ilustrar.
    - Se você não quer...
    - Faz parte da parte em que eu deveria te agradar menos.
    Sempre falo demais. Outra vez. Nunca basta.
    - Posso ser sincera?
    - Sempre.
    - Não funciona.
    - O quê?
    - Você me fez rir e funcionou tudo ao contrário! E me agradou e, tudo o que eu precisava hoje, era rir de verdade!
    - Não faz isso.
    - Viu como sua teoria é furada?
    - É minha escolha, sim!
    Mentira. Não escolho nada. Ela me embaralha, dá as cartas, blefa, rouba, ganha sempre.
    - A teoria da escolha outra vez?
    - É sempre a mesma teoria.
    - Eu acho que você é levado a fazer coisas.
    Eu sei que é ela quem me leva.
    - Faço o que escolho, não sou tão bobo assim.
    Mentira.
    - Certeza?
    Claro que não.
    - Tenho.
    Quando “ela” é o assunto, a conversa e o texto terminam e não tenho nada. Invariavelmente, sempre e apenas estação do acaso.
     
    27/08/2007

    E te direi quem és

     
     
    Eu vivo num mundo paralelo e fantástico onde o imaginário soa mais real. Vivo com base em pedras atiradas num lago com ondas ferozes. O que jogo, volta devagar com base no meu desejo. O que penso ecoa por semanas em cada uma de minhas palavras e textos. Pode ser que poucos leiam, não importa. Ainda assim, quero escrever para a vida. Viver escrevendo.
    Meu nome é Tito e é Felipe. Confundo e me confundem, mas isso não importa. O que importa de verdade são todas as pessoas que conheço. Na fase que hoje posso chamar de “beta” da minha vida, eu estava mais sozinho, largado, solto por mim mesmo. Todo dia havia um abismo para saltar sobre e, geralmente, eu caía. As mãos estendidas ao meu lado não pareciam suficientes e eu escolhia cair perdido, porque não estava nem pensando em me encontrar.
    Ainda não cheguei na fase “alfa”. Estou no meio do caminho, mas não sou mais o Felipe ou o Tito de antes. Sou mais. Procuro alcançar e toco a ponta dos dedos dos meus amigos e amigas. Estes também soam mais verdadeiros, puros, reais.
    Até chegar aqui, caminhei no escuro, contra a gravidade do abismo. Encontrei uma irmã que fez e faz toda a diferença para minha vida. Ela sabe. Eu sei. Outros não entendem. Mas ela me puxa pela mão ou pela orelha. O caminho traçado vai sendo percorrido com voltas, tropeços, retiradas e avanços.
    Queria poder falar mais sobre o Tito ou o Felipe. Porém, ainda não me conheço tão bem assim. Sei que sou o que desejo, embora ainda não entenda meu significado. Já descobri também do que não gosto e entendi que não vale a pena enumerar, apenas evitar. Sou mais paciente, menos crítico, tenho menos razão, faço questão de admitir meus erros, procuro aprender com minha vida e com a vida dos outros.
    Procuro pensar em cada palavra dita. Ainda não consigo, mas o exercício é válido. Escuto pra valer. Choro quando preciso, mas sem precisar que alguém fique sabendo. Canto um pouco todo dia, alto e desafinado. Procuro o bem, o bom, o correto. Sonho realidade. Penso longe e todo dia encontro um novo desafio, além de desafiar-me em busca do presente. Nem sempre aproveito, curto ou vivo de verdade. Sempre tento e mesmo nos piores dias, naquelas manhãs de quarta-feira cheias de mau humor, eu respiro e tento não descontar em ninguém.
    Gosto de café forte, cerveja encorpada, suco de soja, vinho tinto e isotônicos. Como de tudo e meu avô é meu cheff preferido. De cozinha, de família. Da janela de seu quarto é que eu espio o universo de escolhas ao meu dispor. Amo e peço a benção. Ele sempre diz: “Deus que te abençoe.” E aperta forte minha mão, fazendo cara de quem cuida e sente orgulho. Ele é meu orgulho.
    Poderia falar mais sobre o que me define como pessoa, filho, irmão, neto, afilhado, publicitário, coxa-branca, marketeiro, redator, escritor, poeta, louco pela vida. Poderia escrever sempre mais e falar de mim mesmo em todo texto. E posso dizer que faço essa escolha, para que todos entendam. Para que coloquem suas vidas sob uma ótica. Percebam se estão ou não sozinhos. Porque apenas através do meu próprio olhar é que posso falar do meu mundo paralelo e fantástico onde o imaginário soa mais real.
     
    26/08/2007

    Chegou, o final chegou

     
     
    Todo mundo que ama, canta. Para Tito a vida era diferente, mas o bom amar e o bem cantar existiam. Poucos sabiam de tudo que ele sentia, sonhava, queria. Porém, não havia muito como saber. O mundo é curto e o domingo jamais longo. Fez quem sabe, cantar. Escreveu e bebeu. Desejou e não realizou. A semana acabava em dor. Dor de nada, pois nada entrega, faz merecer.
    Tito senta e escreve. Volta para casa escutando aquele som, garçom. Não poderia ser diferente, quanta gente. Quanta paz, quantas horas até a meia-noite. Depois ele se manda, se recolhe e dorme. Com paz, se deixarem. Com som, se tiver luz. Com amor: “Não, nesse fim de semana não, Tito.”
    Ele pega e paga. Chora e vê, sabe Deus o que quiser. Deus ou deusa e ilusão. Na mão estendida, nada. Tudo perdido. Texto sem rima. Nota sem letra. Domingo com maionese, mas sem cinema. “Se você não entendeu, normal.” Olhos desencantados, pequena. Sempre o mesmo texto. Mesmo texto fazendo cada vez menos sentido.
    Tito louco e perdido na rua, na sua. Não há o que se dizer e as palavras parecem boas, mas são vazias. Não querem dizer nada e conseguem. Mais um nada em palavras, mas tudo em sonhos. Crê, ri, mera coincidência. Primeiro. Primeiro. Último texto.
     
    21/08/2007

    Delírios sem fim

     
     
    Tito sonhou. Primeiro era perseguido por cachorros. O coração foi parar na boca. O medo, misturado com ligeiro desespero, levava a adrenalina a entrar em cena. Tito sonhava e corria num delírio de travesseiro. Porém, o que é etéreo muda rápido. Do cão se fez onça pintada, como numa tela surreal. Garras elásticas. Presas sedentas. Tito corria como Forrest. Pulava de árvore em árvore igual ao nagual que o Castañeda levou a conhecer. A onça o perseguia com ainda mais vontade. Quando o desejo o alcançou, deitou-se em seus braços. Aninhou-se à procura de carinho e se transformou em mulher. Beijou-o. Beijo de como se fosse amanhã. Louco. Solto. Pouco. Tito acordou.
     
    Molhou o cabelo e colocou o uniforme. Era dia de futebol. “O que não significa que eu realmente jogue alguma coisa.” Correu. Suou. Tentou. Marcou três gols. Perdeu vinte um. Tirou a camisa e tomou cerveja. Copos, canecas, garrafas. O sábado tinha sol intenso. Delírios de um verão que permanece ao longe, observando o desfile do inverno e o aquecimento do outono.
     
    Em casa, mais cerveja. Latinhas. Conversa boa com irmã. Delírios apaixonados em cada palavra de futuro. Mais sol. Pés descalços no gramado. Vento bom em toda árvore. Sorrisos verdes em cada som de tranqüilidade e fim de semana. Música. Cachorro do vizinho latindo baixo e Tito olhando para o céu. À procura de respostas, de verdades, de desenhos em nuvens. “A verdade está lá fora.”
     
    Com um suspiro de saudade, foi ao jogo. Viu seu time vencer. Dois gols. “Perderam vinte e um.” Gritou. Torceu. Vibrou. Colocou para fora o que é ruim e foi para casa leve, feliz. Sorriu durante o caminho e mudou o curso. Parou para seus amigos e amigas. Conversou e riu do seu dia, dos gols perdidos, do formato das nuvens. Delírios de paz e harmonia. Algumas taças de vinho. Sangue etílico. Sono bom, fácil, necessário.
     
    Tito sonhou. Primeiro era perseguido por cachorros. O coração foi parar na boca. O medo, misturado com ligeiro desespero, levava a adrenalina a entrar em cena. Tito sonhava e corria num delírio de travesseiro. Porém, o que é etéreo muda rápido. Do cão se fez onça pintada, como numa tela surreal. Garras elásticas. Presas sedentas. Tito corria como Forrest. Pulava de árvore em árvore igual ao nagual que o Castañeda levou a conhecer. A onça o perseguia com ainda mais vontade. Quando o desejo o alcançou, deitou-se em seus braços. Aninhou-se à procura de carinho e se transformou em mulher. Beijou-o. Beijo de como se fosse amanhã. Louco. Solto. Pouco. Tito acordou.
     
    20/08/2007

    Cansado de dizer “não”

     
     
    O despertador do celular toca. A música que já se consolidou como traumática e irritante chega aos ouvidos de Tito que responde com um breve toque no botão “ok, já entendi”. Mais cinco, dez, vinte minutos. 6:50. Levanta como quem não quer nada. Pisa devagar no chão gelado e sente uma saudade instantânea do cobertor aconchegante, do travesseiro que fica no meio das pernas, separando um joelho do outro.
    6:53. A porta do guarda-roupas range e ele escolhe a primeira calça e a terceira camisa. Corre pro banho com uma sensação diferente de exaustão. E, cansado de dizer “não”, ele desenha os planos do dia no azulejo do banheiro. Agenda completa e água caindo devagar sobre as costas que parecem carregar um pouco do peso do fantástico mundo.
    7:07. Tito usa a toalha sem esperança. Deixa que cada gota desapareça, num universo de umidade e pré-mofo que envolve a cidade em que cresceu. Sonha brevemente com um futuro diferente. No sentimento, lembranças tristes. No olhar, distância e imaginação. Desejo, vontade e distância. O pente passeia suave. O cabelo para trás. Como um astro do rock se veste e desenha vida em planos complexos.
    7:38. O carro passa pelo portão e Tito respira fundo. Busca forças para mais uma semana sem grandes paixões, sem beijos loucos, sem expectativa. Cansado de dizer “sim”, ele deixa que a esperança tome seu rumo desconhecido. Suspira e, minutos depois, estaciona. Pensa em escrever, mas a rotina toma conta. Não há grande vontade, mas a vida segue seu curso.
    12:35. O almoço passa rápido e escrever ganha tempo, espaço, importância.
    Mergulha em pensamentos e tenta lembrar de seu dia. Busca nas letras a certeza de que está vivendo. Olha para o lado, ninguém por perto de sua mesa e a solidão sorri. Tito, cansado de dizer “sempre”, abraça sua nova amiga. Bate um papo.
    - Tenho tão pouco?
    - Solidão, Tito.
    - É tanto assim?
    - Solidão, Tito.
    Escreve e inventa personagens. Vê a si mesmo como outro Tito e descarta a opção. Descarta dama e ás. O telefone não toca, as palavras faltam e o texto parece triste, mas não é. Tito, cansado de dizer “triste”, só escreve buscando um novo sonho para seguir. Cansado de escrever “sonhar”, lembra com carinho. Cansado de escrever, grita “ponto final”.
     
    16/08/2007

    Canção de amor

     
     
    Resolvi que naquela noite passaria horas olhando para as paredes manchadas do quarto apertado.
    Entre uma marca e outra, da parede, do passado, resolvi ouvir uma música.
    Não qualquer, jamais qualquer.
    Chico mais de uma vez.
    Resolvi prestar atenção à mancha, à música.
    Canções de amor, “quanto tempo faz?”
     
    O pensamento em canções de atores, de amores.
    A música perdida se encontra e eclode, explode.
    Vida e sentimento, puro desejo, me confunde, se fundem.
    Não há mal que uma canção de amor não cure, não dure.
    “Não, não cante.”
     
    Um pedaço falta: o da esperança de adulto, de criança.
    Não há sorriso em minha memória, Chico amigo.
    Não parece fazer sentindo já que o corpo padece, decresce em esplendor.
     
    “Haverá ainda o amor?”
    Para quem se canta, se não há?
    Ecos em simples boas letras escritas, pensadas, pesadas.
    E se formos contrariados pelo mesmo calendário que você cantou, meu caro amigo?
    Espero que sim, que paz.
    Espero de toda música: canção de amor.
    09/08/2007

    A Confissão

     
     
    “Confesso, fiz de propósito.”
    É, ele fez.
    “Mas fiz por mim, pela primeira vez.”
    Verdade também.
    “E valeu a pena.”
     
    Tito chegou lá nervoso. Levou a irmã para segurar sua mão caso fosse necessário. “Até que não foi.” No começo ficou nervoso e sentiu uma nuvem cercá-lo entre todas aquelas pessoas que fizeram parte de sua história. Uma nuvem levantou poeira de sentimentos e tudo ficou confuso. Tito enxergava a si próprio abraçando e saudando todas aquelas pessoas. Era confuso. Era como ficar cego. Agir por mero reflexo. Reflexo acertado que faz toda a diferença. “Daqueles que nos impedem de bater o carro, de ser atropelado atravessando a rua ou o trilho do trem.” A poeira nublava os olhos e era impossível decifrar a intenção dos movimentos. Movimentos dele e movimentos alheios. Simpatia e sorrisos. Não há muito que dizer ou escrever, a não ser que a profecia do Neruda se concretizou. Ele foi até lá para descobrir se era verdade. “Como eu disse, fui por mim.” E descobriu que o sentimento que sobrou era bom.
     
    “Já não se encantarão meus olhos nos teus olhos, já não se adoçará junto a ti a minha dor.”
     
    Ao se despedir a mesma coisa: poeira e batimentos cardíacos acelerados. Olhos nublados e nada de dor. Só sobrou o lado bom da saudade. A escolha estava finalmente em suas mãos e, pela primeira vez, ele encontrou e não sofreu. Encontrou-a. Encontrou-se. Saiu feliz. “Por mim mesmo, pela primeira vez.” Verdade, felicidade. Pela incerteza do futuro, pela saudade com vontade e pelo carinho bom que sempre permanecerá em silêncio e sem dor.
     
    03/08/2007

    Como Escrever um Texto Medíocre

     
     
    O fator mais detestável da mediocridade é que não se pode escrever sobre ela. Não há maneira de se escrever um texto bom, com palavras geniais, mas sentimentos medíocres. Aliás, quando Tito olhou para o lado, percebeu que estava cercado de mediocridade. “Isso sem nem mesmo contar escolhas diárias das pessoas.”
    Ele percebeu que trabalhar bastante, ir para casa, tomar banho morno, assistir um dvd e ir dormir fazia parte do universo de mediocridade que tomou conta de sua vida rotineira e que não lhe permitia escrever, sonhar, chorar. Pelo menos, não conseguia fazer nada disso direito.
     
    Tito sabia que texto bom não poderia sair desse tipo de vida. Por conseqüência, essa não poderia jamais ser sua escolha. Para a vida, para o mundo. “Pára tudo.”
    A vontade de escrever aparecia mais do que nunca. Porém, faltava paixão. Por isso mesmo, na sexta-feira, o dia titânico oficial de começar bem o fim de semana, ele decidiu escrever um texto medíocre. Para levar, para suspirar. “Para tudo.”
     
    Claro que Tito pensou em começar dizendo em como, quando acordou, ele tirou a coberta de cima de suas pernas num movimento rápido. Em como escolheu sua camisa branca preferida para sorrir sem medo para toda bela mulher que encontrasse. Em como tomou um banho que levou pra longe a preguiça de viver. Em como, quando abriu a porta do banheiro, sentiu o vento gelado da manhã curitibana o envolvendo com sopro de “vamos-lá-ou-volte-para-a-cama.” Poderia falar também do gosto macio do pão de forma e do sabor suave do peito de peru defumado e em como cada mordida era acompanhado de um movimento nervoso de seu maxilar, pois estava atrasado. Poderia escrever também sobre a última olhada no espelho e em como se sentiu bem consigo mesmo, pela camisa e pelo dia de cabelo bom. Poderia dizer algo sobre o primeiro copo de café da manhã, sobre o gosto amargo que tomava conta da boca deixando um gosto viciante de vitalidade. “Primeiro café de muitos, sempre.” Poderia falar disso tudo e do toque suave e pensativo do dedo no teclado. Escrever para quem quer que fosse. Para quem resolvesse ler, para quem ouvisse alguém ler. “Pára tudo.”
     
    Parou tudo e voltou ao texto sobre a mediocridade. Terminou e assinou: “mais um texto medíocre de Tito, sem paixões para o presente momento.” Para a vida, para o fantástico mundo. “Pára o texto.” E tudo terminou assim: medíocre, num ponto que nem mesmo é final.
     
    02/08/2007

    Nada Não

     
     
    Assobiou. Ninguém ouviu. Nem mesmo um olhar distraído para conferir o motivo. Ele assobiou outra vez e nada. Nada. Nada. Olhou em volta e viu uma pedra. Jogou pra longe, mas não acertou ninguém. E o mundo girava como se nada acontecesse. Nada. Nada.
    Tito viu o inverno ser interrompido de uma hora para outra por um sol inexplicável. A cena surreal prosseguiu até a próxima reunião. Uma antes da banca que acabou se mostrando tensa, mas não tão dolorida afinal. A escolha pelo mestrado parecia lógica finalmente, até porque o desfecho se desenhava.
    Mas na quinta-feira não era mais dia de pensar nisso. Então, ele assobiou e ninguém percebeu. Ele jogou uma pedra para longe e não acertou ninguém. Nada e nada.
    O recurso era a televisão e os dvds. Nada parecia importar tanto diante do silêncio. Nada. Nada. Desligou tudo e trancou a porta. Decidiu mantê-la fechada por um tempo. Até que a batida “tum-dum” seja forte e valorosa o suficiente para se abrir. Abrir e sorrir, mas nada e nada enquanto isso. Era noite e o sono veio logo, “finalmente”.