Felipe's profileO Fantástico Mundo de Fe...PhotosBlogLists Tools Help

Blog


    8/28/2006

    Sorriso e Sombra

    O dia começou com a imagem do relógio. Seus ponteiros invertidos faziam os olhos também parecer do avesso. Tito só se mexeu para tirar o cabelo do olho. O quarto bagunçado deixava a luz entrar chamando-o pelo nome. Voz estranha soava forte e poderia até assustar, mas não naquele dia.

    Naquele dia, Tito levantou devagar. Respirando e absorvendo cada grão de pó e todo o cheiro de mofo e de perfume que impregnava o semicírculo perfeito ao redor de sua cama que ficava encostada na parede.

    Os olhos voltaram ao normal, mas os ponteiros não. Os cabelos ainda estavam na cara. Tito tirou outra vez, segundo movimento, e continuou levantando devagar. Olhou no espelho e o sorriso estava lá. Misterioso. Sincero. Espontâneo. Tito não se reconheceu. O reflexo dos dois dias anteriores não passava de uma sombra acinzentada no fundo do espelho daquele dia.

    O piso do banheiro gelado, a água quente. A lâmina de barbear passou rente ao rosto, cortando o sorriso. Mas ele continuou por lá. Tito respirou fundo pela terceira vez e, novamente, no espelho o rosto estranho e sombra acinzentada e sarcástica dos dois dias anteriores.

    A água quente fez pensar melhor, como se o mundo pudesse acabar por ali mesmo, em sorriso e em sombra sem lágrima. O perfume se espalhou com o vapor e contrastou com o cheiro de toalha molhada dos dias anteriores. “Não se pode negar o passado.”

    Foi tudo muito rápido e, no retrovisor do carro que demorou pra pegar com o frio, o sorriso permanecia sobrepujando o sarcasmo sombrio. Naquele dia, não havia como negar uma incontida satisfação. Nem as enroscadas da marcha do carro velho. Nem o mau humor dos infelizes de toda segunda-feira. “Nem nada.” Naquele dia, nada poderia fazer Tito reconhecer seu rosto de sempre no espelho de ontem.

    Não havia nenhuma resposta diferente daquelas que sempre se ouve em todo lugar comum. Não havia caminho novo nas velhas estradas do caminho empoeirado daquela estrada de chão íngreme e seco. Tito continuava andando sozinho e buscando resposta. E sorria simplesmente. O porquê era praticamente só dele.

     

     "...foto em homenagem a uma amiga titânica que sabe, como ninguém, dizer o que preciso ouvir..."