Felipe's profileO Fantástico Mundo de Fe...PhotosBlogLists Tools Help

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    30/07/2007

    Boa Barca, Doce Ilha

     
     
    Tito olhava o mar. Era o mesmo de seus 13 anos. A pedra no meio da areia e o farol no alto do morro também eram os mesmos. Vento e frio fortes. A vida não era mais a mesma.
    O tempo apagara os nomes que foram escritos na areia e não havia mais a adolescência para justificar a dificuldade em lidar com a vida.
    A Ilha do Mel parecia mais doce, mais acolhedora e mais madura. Cada passo daquela adolescência estava marcado nas trilhas escuras pelas quais a luz de uma lanterna qualquer passeava. Melancolia e saudosismo. A água gelada e as fogueiras apagadas traziam a sensação térmica de uma tristeza contida e de algo por viver.
    As duas amigas sabiam mais. Tomar cerveja e olhar as ondas cobrirem de branco o azul profundo do oceano à frente, sempre infinito. Tomar vinho e conversar sobre a vida, as decepções e sobre o que nos faz boas pessoas, indivíduos felizes. Escutar era o melhor e cada nova pessoa que aparecia na história só deixava tudo mais engraçado e sonoro, bom de contar e de escrever.
    A música boa vinha dos diálogos e de sorrisos, sempre mais. A noite trouxe o véu da aventura com algumas estrelas a serem apreciadas, como num sonho. “Para apreciar o brilho de todas é preciso desfrutar da luz de cada uma.” Frases sentidas e repetidas.
    No brilho da luz da lua sobre a água, surpresas. Onda molhando os pés e congelando os pensamentos em cada instante. Todo momento, com mãos dadas e beijos de carinho. A noite passava no calor da amizade dos corpos dos desconhecidos de todo um Brasil. Cada sotaque e terra em uma mesma ilha com um doce mel de felicidade e desejo. Desejo que tomava conta de uma madrugada em que as camas quentes convidavam a mais aventuras e novas histórias.
    Carinho encontrado em uma viagem com cheiro doce. Doce cheiro de desejo de vida cheia e plena. Suspiros, barcos e presente. Presente da vida. Presente na vida. Barcos que sempre transportam para o que é magia e continuarão lá, navegando em sonhos. Suspiros pelo que é desconhecido desaparecido, mas que se mostra possível, ao alcance, plausível. Uma sensação de bem-estar que é muito próxima do que se está para descobrir. Descobrir na vida. Descobrir da vida. Mais nomes escritos em sonhos na areia, de areia.
    Ilha do mel: “non chè più, pessoal.”
     
    24/07/2007

    Descoberta do desejo

     
     
    Queria poder explicar o mundo para todos humanos e quaisquer pessoas. Porém, ele mesmo não compreendia, ainda que todo aquele sentimento fizesse mais sentido aos poucos.
    Tito entendia mais do que ontem e muito mais do que no ano anterior. Mesmo assim, o caminho a ser percorrido era longo. Ele carregava o peso de sua escolha nas costas. A escolha que o distanciava da libertação que só a ignorância proporciona.
    “E as palavras soarão pesadas e fortes a partir de agora.”
    Essa escolha o separava da felicidade. “Por enquanto.” A simplicidade ainda não estava ao seu alcance. “Por hora.” Não como ele imaginava e muito menos como desejava. “Por hoje e, talvez, amanhã.”
    A descoberta orquestrada pela frase do Neruda o derrubou da zona de conforto. Não havia mais como justificar uma felicidade utópica nela. Não havia mais como justificar uma infelicidade concreta nela. Não havia mais maneiras de se justificar, levantar ou ficar de pé por causa dela.
    "Já não se encantarão meus olhos nos teus olhos, já não se adoçará junto a ti a minha dor."
    Tito se encontrou sozinho. Encontrou-se sozinho e se enxergou sozinho. Sentado e com frio no vazio das ilusões que cultivara.
    “E as palavras soarão ainda mais pesadas e fortes daqui para frente.”
     As ilusões o trouxeram até esse ponto, mas agora ele precisava descobrir a vida e a verdade que ela esconde. Cada novo passo torna-se, então, o primeiro. Cada novo beijo traz consigo a frustração de não conhecer o próprio desejo. Isso tudo porque ele não encontra mais a barra de segurança em sua montanha russa e porque a força da gravidade concentra-se apenas em suas próprias pernas. Em suas próprias vontades. Em suas próprias escolhas.
    “E mais palavras pesadas e fortes.”
    Porém, as vontades desapareceram. A comida não tem mais gosto. O café não tem mais seu cheiro. As mulheres não exalam aquele perfume. Os beijos realmente não despertam ou adormecem, apenas são. Não há mais conforto ou porto seguro para se recorrer. Porque o mar é meio e fim por si só, sozinho, solidão.
    "Já não se encantarão meus olhos nos teus olhos, já não se adoçará junto a ti a minha dor."
    As escolhas parecem mais difíceis. Não há maneira de fugir da realidade tão fácil. As tarefas, a rotina e o entretenimento não passam de ocupações sem sentido em sua banalidade e superficialidade. Não há entrega ou retorno. Não há equilíbrio entre os que se sonham e os que se vivem. E os sonhos se confundem com cada pedaço do desejo que não se domina ou se sabe ou se ilude e imagina. A fraqueza consiste em conhecer um pouco mais o caminho, mas saber cada vez menos até onde ele conduz.
    “E mais palavras fortes diante do peso de não saber o que se deseja para o viver.”
    Dos sonhos se fez pó. “All you need is love”, cantam os amigos imaginários. Talvez nessa afirmação adormeça a verdade, simplicidade e felicidade. “Pergunte ao pó”, escrevem outros tão imaginários quanto os primeiros. E a solidão toma forma e volume. O vazio que cerca o corpo o invade e toma conta do intestino, estômago e pulmão. A alma respira nada e ao nada se transpira mais vazio, como uma onda fria de desesperança e lágrimas caem.
    “E fortes e pesadas palavras e sinos.”
    E Tito escreve como último alento. Toca no papel para que a guardiã de seus sentimentos o ouça. Esta se chama harmonia e conselhos. E ele a escuta e busca realizar. Cada passo em falso é um desafio a ser superado. Em cada descida da montanha, harmonia e conselhos fortalecem suas pernas e vocação.
    “Harmonia que pesa e conselho que é forte.”
    Desvia da mortalha que te afaga. Foge do conforto da ignorância. Da falsidade do platônico. Foge do que não é vida e aprende a respirar, andar e viver. Aprende, porque essa é sua escolha. Deixa o mais fácil para os outros e a plenitude aparecerá logo à frente. Basta que Tito sonhe tudo. Basta que Tito descubra que é possível. Basta que Tito descubra o que quer viver. Basta, Tito.
    “Oh, that magic feeling, nowhere to go."
    Mas, por hora, lágrimas caem e se perdem no vazio. Até que seja desbravada a verdade. A verdade do que chama desejo. E lágrimas caem pesadas e fortes, tristes e caladas. Basta, letra e Tito. Basta a palavra que se chama desejo.
     
    20/07/2007

    Banalidades, incertezas, insanidades e "ok"

     
     
    Levantei os olhos e encontrei os dela. Azuis. Perdidos como os meus. Veio aquela sensação que não aparecia faz tempo: borboletas. Tentei sorrir e saiu desajeitado, coisa que só acontece quando realmente eu gosto de alguém. Mas só um olhar não bastou. Ela passou por mim outra vez. Sorrimos. Tratamos de parar e conversar. Fiz uma piada sem graça, coisa que sempre faço quando eu realmente gosto de alguém. Ela riu. Os olhos ainda eram azuis quando os vi pela última vez. O relógio despertou e minha cama quentinha me impediu de levantar. Mais cinco minutos. Cada segundo de sonho preenchendo o vazio do quarto. Segundo despertar do relógio. Eu só levantei no quinto. Coloquei um pé de cada vez no chão. Não reparei se foi o direito primeiro. Geralmente é. Acho que acontece por causa da posição da cama. Abaixei e coloquei o chinelo. Parei em frente à porta do guarda-roupa, pensando assim como faço quando abro a geladeira. Mas quem não faz? O sonho parecia uma tentativa do universo em preencher um vazio que era só meu. Vazio que apareceu depois do dia em que li a frase do Neruda. Grande poeta. Grande sujeito. Respirei fundo e coloquei a calça preta e a camisa azul. A chave do carro foi difícil de encontrar. Tranquei a casa depois do café. Suco de soja. Pão livre de gordura trans. Trans o quê, eu não sei. Deve ser bom, saudável. Encostei no portão e minha mão congelou. Mão gelada, coração quente. Ufa. É bom voltar. Que seja para ficar. Levantei os olhos e a rua estava vazia: sexta-feira.

    19/07/2007

    Relaxa e goza agora

     
     
    Será que a vaia na abertura dos jogos faz mais sentido agora?
    Será que alguém consegue relaxar e gozar enquanto crianças choram sem pai, nem mãe?
    Faz sentido para mais alguém que a apoteose de uma crise aérea aparentemente sem fim seja uma tragédia sem precedentes na história da aviação brasileira?
    É fácil cancelar viagens e pensar até mesmo em fechar Congonhas depois que uma explosão acaba com a tranqüilidade da parcimônia.
    E é uma pena que apenas após o número de mortos ultrapassarem a casa das dezenas é que o nosso ilustríssimo barbudo resolva tentar entender o caos que se instaurou em seu “governo”.
    Claro, que mesmo o barba dos olhos vendados não queria que ninguém morresse. Claro que a ministra do olhar perdido num vidro de vicodin também não queria.
    Porém, é preciso pensar melhor antes de falar. É preciso pensar mais antes de ficar sentado fingindo que nada está acontecendo ou pior: fazendo de conta que ainda tem como culpar o antecessor.
    Aliás, mesmo com a falibilidade dos 8 anos de FHC, não existiu ocasião em que o descaso custasse tantas vidas inocentes.
    Não é hora de achar culpados alguns dizem. Mas quando chegará o momento para que eles assumam suas responsabilidades.
    Chega de ouvir: “Não sei de nada.” ou “O Renan é gente fina.” “Espetáculo do crescimento.” “Companheiro.” “Relaxa e goza.”
    Já foi ultrapassada oficialmente a linha entre um péssimo mandato e a falta de caráter.
    Porra, está na hora de votar melhor, Brasil!
    Acorda, povo, o avião caindo não é o da TAM é o Brasil e, sim, tem pessoas dentro.

    18/07/2007

    Libertação enquanto a rotina toma conta

     
     
    "Já não se encantarão meus olhos nos teus olhos, já não se adoçará junto a ti a minha dor."
     
    Foi lendo essa frase que Tito entendeu o sentimento dos últimos dias, últimas semanas. Não havia mais paixão, amor ou sentimento que o valha em seus dias. Dias em que a rotina tomava conta. Em que um simples sorriso pesava mais que toda a culpa do mundo. Dia de falta de fome. Dia de poucos amigos, poucas palavras e muitas dúvidas. “O que está acontecendo comigo?” Faltava vontade para escrever. Faltava amor para viver e a rotina tomava conta. Nesses dias em que o amor acaba é assim mesmo. Cada um corre para um lado. Dormir não tem gosto ou conforto, mas é o remédio para quem vê o mundo de forma precisa e científica. Para quem sente alheio ao quente ou morno de querer ou desejar ou sonhar. Cada névoa traz consigo uma frase. Frase de desespero e de dor. Dor da ausência que o Drummond deixava tomar conta. Dor que ele dizia assimilada e que Tito chama de desavisada. Porque para ele o mundo é muito fantástico para ser tão pequeno. Não há espaço para tão pouco na intensidade de ritmo que ele vive. Mas, nos dias que a rotina toma conta, o barco parece seguir por conta. Sopra só o vento gelado da solidão. E o silêncio é a única forma de encontrar o porto. E a segurança chega abraçada na falta de perspectivas e o excesso de pensamentos confusos compensa a falha nos batimentos cardíacos mais entusiasmados. Aqueles que fazem a vida valer a pena. “Pode ser só uma fase.” Ele repete a frase da fase em milhões de segundos em que o vazio espalha e leva consigo as borboletas, o estômago e a vontade. Então, a sentença aparece. Perdida num pedaço de papel.
     
    "Já não se encantarão meus olhos nos teus olhos, já não se adoçará junto a ti a minha dor."
     
    Como toda grande idéia do Neruda, reflete mais que um estado de espírito. Retrata a realidade de uma vida que não foi criada para se contentar com pouco amor, paixão ou sentimento que o valha. A que muito habitou o fantástico mundo foi banida do espaço majestoso que ocupava em dias e pensamentos. A mera lembrança do olhar não encantava os olhos. E a dor era da falta. Falta do próprio sentimento que não se adoçava mais com reflexos fantasmagóricos de seu corpo nu e desfeito em lágrimas ou refeito em paixão em profusão que 4 anos não trouxeram consigo e apenas deixaram para trás. Tito estava livre e a solidão tomou conta. Com seu véu de dor da ausência assimilada. Ausência de amor e de abandono da falsa perspectiva. Neblina que aos poucos se dissipa, com cada palavra colocada em um pedaço com pecado de branco em papel manchado pela falta.