Felipe's profileO Fantástico Mundo de Fe...PhotosBlogLists Tools Help

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    13/04/2009

    Epifania

     
     
    Ele, por alguns instantes, viu o mundo de cima.
    Todos estavam lá, em seus pensamentos. O que havia de pensado, vivido e acontecido se encontrava lá. Então, revirou-se na cama como quem remexe no próprio passado. Sacudiu o presente e fez planos para o futuro próximo e para o distante.
    Esse era seu jeito de fazer as coisas acontecerem. Programar antes lhe parecia reconfortante. Soava como uma certeza da prioridade para o próximo passo.
    E ele seguia. Mexia-se em sua cama, levantava de quando em quando, mas permanecia com o corpo estatelado, estático e parado. O movimento se dava apenas em consciência.
    Ele, por alguns instantes, viu o mundo de cima.
     
    Logo, pulou-lhe o primeiro misto de memória e de devaneio à mente. Havia sol. Entrava pela janela da infância. Lá fora, o quintal da casa de seu avô. Sua avó ainda viva ali, ao seu lado. Ela e aquele sorriso doce que reservava apenas para ele. O sorriso entrecortado pela tosse tuberculosa do pulmão doente. Ela mexia em algo do quintal e ele corria de um lado para o outro, sentindo-se protegido e indestrutível. Corria como se fosse o mais veloz dos meninos. Chegava próximo à felicidade antes desta lhe escapar em preocupações que não deveria conservar naquela idade. Ela lhe falava. Dirigia-lhe a voz terna e sincera das avós que amam.
     
    Outra memória. Ele escrevendo. Escrevia madrugada adentro em seu computador velho. Trocava textos e elogios com pessoas que ainda não conhecia direito. Ele não se conhecia. Não acreditava em elogios e as ofensas o destruíam. Continuava menino.
     
    Mais uma. O dia em que várias pessoas morreram, ou melhor, todos os dias em flashes rápidos. Sua reação em cada morte. Seu jeito de fazer para não encarar as coisas. Seu jeito de viver a excitação da perda antes que a tristeza tomasse conta. Sua fuga inofensiva do luto eminente.
     
    Entrevistas de emprego. Momentos no trabalho. Novos desafios. Seus dias em sala de aula, sentado ao fundo. Seus dias à frente da aula. Seus dias de outras cidades, de praia, de prédios, de areia, de cerveja e de música. Suas horas mais agitadas se transformando em nada, na tranqüilidade do nada.
     
    Espalhou ao mundo o amor que conservava pelas pessoas que admirava. Descobriu quanto amor podia sentir ao mesmo tempo. Descobriu a tristeza da falta de propósito. Mergulhou em pensamentos sobre suas escolhas e enxergou a diferença do caminho das opções corretas. Censurou a si mesmo pela fraqueza da alma, pelo apetite perdido, pelas preocupações que não envolvia humanidade.
     
    Tão vazio era seu discurso quanto seus pensamentos. Tão vazias suas escolhas diante da fragilidade dos dias, da incerteza do tempo. Não questionou nada dos rumos tomados no passado. Sentiu saudades aterradoras de quem não se ouve mais falar.
    Sanidade parecia uma questão de mera opção. Resmungava consigo mesmo.
    - Tão estanho esse mundo. Tão vazio e, ainda assim, passamos tanto tempo nos preocupando por nada.
    E, por alguns instantes, viu o mundo de cima.
    Concluiu que o propósito é algo que se perde ao despertar.

     

    03/04/2009

    Na aridez do pensamento

     
     
    Between the desire
    And the spasm
    Between the potency
    And the existence
    Between the essence
    And the descent
    Falls the Shadow
    T.S. Eliot
     
     
    Ano vazio. Nada de progressões aritméticas ou geométricas de desenvolvimento. Acho engraçado que justamente no vigésimo sexto ano, número que coincide com meu dia do mês de abril, eu não progrida nos degraus que quiçá me conduzem ao além-homem-mundano descrito pelo Nietzsche.
    Sinto que sentei em uma cadeira confortável nesse primeiro trimestre. Minhas nádegas começaram a formigar e, ainda assim, não me mexi. Por comodismo ou pela inércia provocada pela rotina. Os motivos são diversos. Olho no espelho e, como em qualquer clichê literário, não me vejo. É como se, em minha consciência livre, eu tenha evoluído. Porém, estou sentado à beira de um degrau. Estático. Imóvel. Apenas observo com parcimônia o vento e o abismo.
    Minhas escadas são suspensas. Não se ligam ou apegam a nada e não conduzem a lugar nenhum. Há vermelho na atmosfera. O ambiente é árido. Não há transeuntes. Apenas minha imaginação, personagens da minha memória. Não olho para enxergar. Apenas sei das coisas. Os perfumes e cheiros fúnebres me chegam como numa sensação doida de torpor. Não me importo. Olho a paisagem e me embriago com minha própria vista. Aquilo me pertence na mesma medida que me domina e possui.
    Sou um escravo das escadas agora. Neste ano de reflexão e mudança no mundo, penso. Atento a tudo. Mudo minha opinião, percepção e direção. Evoluo em suspiros de imagem sem ação. Fujo dos atalhos. O que me interessa é a evolução do caminho percorrido. No entanto, não levanto do meu degrau. Degrau de meses, de sentimento de tempo perdido.
     
    Lembro do meu eu-menino e tenho saudades, mas deixo que me passe até que se eleve, transformando-se em outra imagem de minha adolescência que culmina no começo da juventude com a faculdade e a descoberta do amor que vem junto com o sofrer do rompimento cuja força me revira as vísceras apontando para especialização e mestrado até as salas de aula em que plenamente penso e sinto a vida que se esvai na medida em que tudo isso acontece em paralelo com o meu eu-corporativo e com o amor que confio à minha família que se reúne no sábado e todo domingo, mas, de uma hora para outra, vejo que acordei numa das manhãs das minhas quatorze horas e meia de trabalho diário e vejo a preguiça que me é como um indicativo cinza e triste de que estou estagnado neste maldito degrau.
     
    Converso. Escrevo. Desabafo. Sinto que as paredes se aproximam. Sinto que ocupo um corredor vazio no mundo e, de imediato, transporto essa consciência-livre para a aridez da escadaria de ar e vento vermelho. Vejo que a paz é feita de enxofre. Quanta paz encontro nessa solidão de minha própria reflexão. Fujo, corro e volto. Volto para o deserto das minhas escolhas. Em menos de uma manhã insone penso em tudo isso e vejo, sinto minhas nádegas formigando. Eu e meu maldito degrau.