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    4/20/2006

    Fala, Mestre

    Praticamente quatro meses de preparação para um mergulho num poço de água gelada que transbordava conhecimento. Tito respirou fundo antes dos primeiros passos rumo àquele novo desafio. A Universidade ainda era a mesma do ano anterior. Ano de especialização. Ano de pequenos pulos em poças geladas. A Universidade também era a mesma de quatro outros anos. Quatro outros anos de graduação. Festas. Autoconhecimento. Amadurecimento.

    Contudo, o momento diferenciava-se. “Diferenciava-se de tudo que eu já havia visto.” Do facilmente atingível. “Dava pra sentir no ar.” Sentir que o vento soprava profetizando o fim do sossego e da tranqüilidade. “Mas não tem problema!”

    E havia também o tal do “só sei que nada sei” de Sócrates que ainda tocava forte em Tito. Ainda mais com tantos colegas brilhantes reunidos em uma só sala de aula. Tantas pessoas brilhantes com um mesmo objetivo para os próximos dois anos: tornar-se Mestre.

    O caminho exigia dedicação e todos os meses de preparação e de processo seletivo, com provas, redações entrevistas e tudo mais, já indicavam isso. Tito sabia. Porém, sentia que diante de tantos outros era apenas um jovem de seus vinte e poucos anos. “Um peixe jovem dentro da água.” O peixe mais novo de um cardume dedicado e aparentemente prodigioso.

    Não havia maneiras de não se assustar pelo menos um pouco. “Assustar a ponto de segurar na cadeira, mas jamais a ponto de querer sair correndo.” Não havia como não se admirar com os professores. “Todos doutores ou pós-doutores que sabiam do que falavam.” Com os novos amigos e amigas. Com as conversas inteligentes. Com o comportamento maduro em sala de aula. O mundo soava fantástico até mesmo nos murmúrios entrecomentados durante um intervalo e outro.

    Resenhas. Trabalhos. Artigos. Seminários. Nada parecia simples. “E eu segurava mais forte na cadeira.” Mesmo assim, tudo se desenhava como o início de uma estrada de realização pessoal. Tito sorria mais do que de costume. “Sorria um pouco nervoso, é verdade, afinal o peso da responsabilidade asfixiava um pouco.” A solução era aproveitar o que sobrava do ar puro e descontraído que um Tito interessado respirou antes dos primeiros passos rumo àquele desafio.

    Poucas aulas depois, ele já se considerava outra pessoa. Preparada humildemente para aprender mais e evoluir. Tito, outra pessoa. Responsabilidades. Vida nova. Oportunidades grandiosas. Satisfação exaustiva. Água gelada. Pouco espaço. Pouco ar. Esforço. Trabalho. Estudo. Desafio. “Fala, Mestre.”
    4/12/2006

    6 da Manhã de Sábado

    Ploft, ploft e ploft. Aquele barulho insistia em continuar e já tinha passado do limite suportável do incômodo. Tito olhava de um lado para o outro a procura do silêncio. Ploft e ploft. “Uia, mas que merda é essa?” O tempo também contribuía com um tic tac incômodo e a solidão atravessava a longínqua rua fora da faixa de pedestres.

    Ploft. A madrugada se arrastava sem vento e PLOFT. “Agora chega dessa merda, vou atirar um livro do Paulo Coelho no filha da puta que tá fazendo esse barulho do caralho.” Tito levantou da cama e o frio o envolveu. Ploft. O pé descalço marcou o azulejo do piso. Ploft. O chinelo, bom, não havia tempo para chinelo com todo aquele PLOFT.

    Ploft. A cortina custou a abriu, mas cedeu. Tito quase ficou com um pedaço do pano na mão, pois a visão era estarrecedora. Havia um homem parado ao lado de fora da casa. “O sádico sorria e cantava apontando aquela voz pra janela.”

    E ainda tinha o tal do PLOFT. Ploft, ploft, homem sádico cantando e ploft. Tratava-se de um conjunto assustador composto pelo pedreiro e sua voz desafinada de canário paraguaio. Ele cantava uma música sertaneja em pleno-início-de-um-começo-eminente-da-manhã-de-um-sábado-de-uma-semana-exaustiva.

    A música contava a história triste, “ploft”, de uma espécie de homem muito macho, “ploft”, ou muito corno qualquer que havia, “ploft”, sido largado pela mulher e, muito provavelmente pela amante também, numa seqüência, “ploft”, terrível de pieguice e uma coisa pra lá de, “ploft”, brega que culminava num troço, “ploft”, chamado refrão em que predominava o, “ploft”, temido e redundantemente literal “ai ai ai”. “Tratava-se realmente da onomatopéia da dor.”

    E o ploft continuava.

    Tito não sabia o que era pior e procurou concentrar suas forças em descobrir de onde vinha aquela maldita onomatopéia. E descobriu. “Tinha um homenzinho barulhento em cima do telhado trocando as telhas no ritmo da música que era vomitada na minha janela.” As telhas velhas voavam (ploft) e as novas se assentavam no telhado (ploft) numa valsa sertaneja da construção civil.

    Definição contextual do ploft: telha velha, ploft; telha nova, ploft.

    E a “música” continuava sendo disparada contra os ouvido do jovem e sempre otimista publicitário da Curitiba perdida de alguns. Tito só não atirou o livro do Paulo Coelho no sujeito, porque não mantinha esse tipo de coisas em sua casa. “Pelo mesmo motivo que nunca votei no PT e pela mesma razão que não acredito em quem compra produtos com prazo de validade expirado.”

    Realmente não havia nenhum objeto suficientemente agressivo para atirar no pedreiro sádico. Nem mesmo uma obra qualquer da, “escritora?”, Maitê Proença. Então, Tito voltou pra cama. Ploft. Ploft. Ploft. Colocou um travesseiro na cabeça. Ploft. Ploft. Colocou mais um travesseiro. Ploft. Colocou um acolchoado também. Silêncio, mas começou a sufocar e o recurso foi levantar e escrever. Ploft.