Felipe's profileO Fantástico Mundo de Fe...PhotosBlogLists Tools Help

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    27/03/2008

    Numa moldura de letras e sonhos

     
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    Em noites escuras, como as dos dias mais tristes, ele deitava com olhos fechados em pensamentos. Visualizava a morena de sua vida, desfilando e sorrindo. Enxergava-a em tom mudo de beijos com gosto de perfume úmido e doce. Chegava a tocar naqueles lábios desenhados pela criatividade e sentia o toque macio daquele rosto em suas mãos de sonhador.
    Seu corpo fazia sombra em preto e branco, como num filme antigo daqueles que ele lembrava apenas da trilha sonora. Chegava a ouvir uma do Frank, interpretada por um sujeito gordo ao piano e com sorriso que se destacava em meio ao cinza. O cheiro do vinho derramado nas mesas inebriava e confundia os sentidos. Fazia formigar os dedos a cada toque, como se o corpo nunca tivesse rompido a barreira da paralisia quando se tratava de amor, de amar e de se apaixonar.
    - Da onde você veio? – ela rompia o silêncio dos beijos e emendava um sorriso ao fim da frase, como se a curiosidade fosse motivo de satisfação.
    - Estava procurando você. Desenhei meu desejo. Imaginei cada detalhe e me esforcei em cada gosto e toque para que a realidade tomasse forma.
    - E?
    - E aqui estou. Em meio à realidade que é só nossa.
    Ela pareceu gostar de ouvir tudo aquilo. Porém, não tratou como verdade. Claramente, seus olhos castanhos expressivos viam o mundo além dos aspectos oníricos e detalhes de perfeição criada. Ela tinha o senso de realidade de quem de fato existe e apenas viu seu belo corpo de musa ser transportado para aquele ambiente ao som do que não se esquece e do que não se arranca do peito.
    - Eu dormi e apareci aqui. Ou melhor, você apareceu na minha frente.
    - E agora?
    A música acabava e outro beijo despertava a felicidade que apenas os sentidos são capazes de proporcionar. Ele, que sempre levou a coragem estampada em cores de seu estandarte, perdeu-se para sempre nesse sentimento e viu murchar em importância todo o resto. A música desapareceu em toque e carinho, mas a voz recomeçou. Piegas, apenas para quem não era ele, para quem nunca foi ela. Pela primeira vez, desejaram abandonar o mundo que não passava de triste sina diante de tanta razão para jamais chorar.
    O cheiro do vinho se misturou ao de grama molhada e comida pronta, pão assado e toalha sobre uma grama seca de outono. Uma manta na ponta do quadro. Não havia lago, ladeira ou morro. Só sombra fresca de árvores que não paravam de derramar folhas beges e castanhas suaves. De devaneio cinza, completaram-se de amor e cheiros. Cores e paixão. Beijos e pedaços de fim de mundo que vale a pena dar passagem. De chocolate e rosas, fez-se morada e, numa pintura perfeita, juraram se encontrar em vida mais conhecida, mais fugaz e mais triste. Prometeram em meio a sorrisos de certeza.
    Porém, tudo é mais fácil quando se escreve em códigos, metáforas e sonhos. Tudo é mais fácil quando ele espia o mundo por uma fechadura oposta à rudeza de anjo pornográfico. Quando se enxerga dentro desse enquadramento perfeito. Tudo é ilusão numa moldura de letras e sonhos. Ainda assim, ele acredita. Acordou do devaneio com fé inabalável no encontro no mundo dos tristes. Porque acreditar é ter medida, é viver e é ter coragem. E quem tem coragem, não tem desculpa.
    24/03/2008

    Coelho mergulhado em caos

     
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    Em meio ao caos, Tito acordou e era sábado de aleluia. “Aleluia!” gritavam alguns. Ele apenas ouvia o dia passar quieto. Com olhares tristes almoçou com sua mãe e irmão. Silêncio. O frango com feijão e arroz deixou a vida um pouco mais salgada. A salada de tomates com pimentão vermelho conferia mais sabor à mesa e, em poucos minutos, todos levantaram satisfeitos.
    Em meio ao caos, desejou muito. Porém, parou no desejo e dormiu. Sentiu o travesseiro pesar sob e sobre sua cabeça. Seus cabelos, cada dia mais longos, escapavam pela cabeceira da cama que jazia no quarto em silêncio de aleluia. “Aleluia!”
    Em meio ao caos, sonhou e misturou realidade triste com devaneios de pouca esperança. Seu irmão o sacudiu e Tito encontrou mais uma vez o tal do sábado que não acabava mais. Conversaram banalidades no melhor estilo que a intimidade e a fraternidade proporcionam. Sorriram forçados e ficou difícil de dizer quem se esforçava mais para agradar ao outro.
    Em meio ao caos, espalharam cartas sobre a cama para distrair. Morderam alguns chocolates e observaram as partidas começarem e acabarem sem vencedores. Forçaram mais sorrisos e falaram do passado.
    Em meio ao caos, o sábado acabou. “Aleluia!” Veio o domingo de páscoa e Tito percebeu: as datas seguem seu caminho lógico, matemático e gelado. Os dias chegam independente de saudades e lembranças. Os feriados começam e terminam, seja em paz ou em meio ao caos.
    10/03/2008

    De tudo que me faz falta

     
     
    (sem motivos para foto)
     
     
    Depois de um tempo longe das minhas próprias palavras, percebi o quanto elas me fazem falta. O caos da minha rotina pode até me levar para longe, vez ou outra, mas acabo voltando pela necessidade de ver manchar mais uma folha em branco. Mesmo que não tenha o que falar, ainda que não existam histórias sinceras, vale a pena desapegar um tanto de sentimento em parágrafos sem começo ou fim.
    Somo, a isso tudo, a falta toda que insiste em me assombrar. A falta de vontade causada pelo que acredito que seja o excesso de paixão como meio e sem perspectiva de fim. Não há felicidade nos grandes planos. O fantasmagórico sentimento de falta do mundo toma conta e não há perigo maior. O silêncio sepulcral da impessoalidade das minhas relações mais humanas me faz perder a esperança no fantástico, no mundo e na vida.
    Parece fazer mais sentido a despedida do que a trajetória. É um sentimento de amor tardio que atormenta e tortura quem não vê o mundo rodar. É uma coisa de gente que não sente o chão oscilar sob os próprios pés com os movimentos bruscos do corpo e do olhar. Da cabeça e nariz apontando para o outro lado. Falo de velocidade das coisas, falo da cidade e de sua emancipação do sentimento.
    Posso errar quando mando o Tito em uma de suas aventuras pelas minhas idéias em branco. Só acho o único jeito de personificar um sentimento há muito ignorado pelo mundo. E, ainda que exista no mundo quem sente de verdade, vejo muito pouco do que é sanguíneo. Enxergo só epiderme e a superficialidade de um tanque de águas turvas e manchadas pela depressão do costume.
    Foi assim que observei Tito atravessando a rua pela primeira vez naquela semana. Mal começava o dia, é verdade. E, no seu movimento lento com o saco de lixo preto na mão direito, qualquer um enxergaria a melancolia do lado esquerdo absorta em pensamentos de viver. Claro que ele sabia. Sabia tanto que largou o saco devagar e olhou firme para o resto de pôr do sol do domingo de pura solidão. Respirou fundo. Fez isso mais por tentar encontrar algum cheiro ou gosto no meio daquilo tudo.
    Fechou o portão e ouviu o chinelo estalar contra o pé e o chão. Fez de conta que não se importava com os latidos dos cachorros e, com passos de final de semana, atravessou a porta. Acendeu um incenso à procura de vida. Repousou seu corpo sobre o colchão velho e surrado e olhou para a imensidão de manchas no branco da parece. Não havia tranqüilidade em seu olhar. Nem brilho, nem nada.
    Adormeceu e, em seu devaneio onírico, encontrou paixão desconhecida e que só lembrou de sentir uma vez. Acordou com vontade de não esquecer, mas perdeu logo a lembrança para a vida e para o tempo que insistia em correr ao seu lado. “Tenho que lembrar. Vamos. Lembra.” Muito pouco restou.
    Então, desencorajado por ainda mais falta, levantou e caminhou. Acabou parando e sentou no gramado em frente à churrasqueira. Respirou profundamente mais de três vezes e só percebeu beleza no canto dos pássaros que desconheciam os nomes dos dias da semana. Deitou confortável no verde que se estendia e tentou sorrir forçado. Seus músculos do rosto se fizeram sentir e ele se lembrou da última vez que os usou com sinceridade.
    “Foi um dos meus sábados. Minha família estava lá. Todos felizes, comendo, como sempre. Minha mãe sorria mais. O vô e a vó ainda não tinham se despedido. Tinha mais grama que calçada por onde o carro passava e eu era criança de tudo. Meus primos mais queridos por perto, faziam de tudo descoberta e corríamos pelo quintal que parecia tão grande. Tínhamos vidros grandes de conserva nas mãos. Aprisionávamos insetos em prol da pesquisa científica ou por uma brincadeira só nossa de caça fantasmas, já não tenho certeza. A vida parecia mais simples e, embora a escola já fosse assustadora e o mundo um desencaixe só no meu ponto de vida, eu falava mais. Não me revestia tanto de solidão e clausura. Tinha vários confidentes imaginários e várias maneiras de me sociabilizar, entre elas abraçar mais as pessoas e sorrir sem doer os músculos da minha cara.”
    Da recordação de criança se deparou com a falta de agora. Tito parecia perdido, porque simplesmente não havia. Algo. Tudo. Difícil de dizer, mesmo que houvesse posto ou partida ao seu lado. Cerrou os olhos. Piscou para o azul imenso. Desejou flutuar e sobrevoar a vida em puro sonho de torpor e formigamento. Nada aconteceu, como já era previsto por Tito, por mim.
    Unidades de tempo depois, o barulho de um carro na casa do vizinho o despertou. Já anoitecia e de azul imenso se fez laranja e cinza. Ele, comigo junto, voltou para o colchão velho e para a parede de branco manchado. Desistiu do olhar fixo e buscou um café. Sentiu o gosto amargo e deixou tomar conta. Puxou um velho amigo e leu descompassado, tentando esquecer da própria vida. Encontrou sentimento de mundo e de falta em cada frase e diálogo das ilhas da corrente.
    Fechou o livro e marcou a página com um cadáver de flor. Esticou as pernas e fez o travesseiro parecer macio. Suspirou pela terceira vez no dia, mas a falta continuava lá. Desejamos mais paixão para o resto do mundo e mais vida para quem já a encontra ou se encontra nela. Desistiu de pensar felicidade e procurou só viver. Não conseguimos. Cada um tem um jeito de ver o mundo. O nosso é pelas vísceras.