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    3/27/2006

    O Retorno de Tito

    Simplesmente voltou. Sempre volta. Mesmo assim, naqueles dias de março, quando o calor inconveniente dava finalmente lugar ao frio tão esperado, Tito andava preocupado. Não enxergava mais palavras nas ruas. Não enxergava mais letras nas pessoas. E tudo isso acontecia porque ele perdia momentaneamente a esperança. Perdia a esperança e deixava de acreditar no que escrevia. Solidão. Um escritor sem palavras é ainda mais solitário que seus próprios monossílabos átonos abandonados em suas páginas negras. Contudo, voltar a escrever não exige razões ou motivos. Já que escrever é uma coisa que simplesmente está lá. Um escritor sabe bem onde. Às vezes, essa coisa fica lá parada, imóvel e adormecida. Só que incomoda. Incomoda a falta dela. Tito sentia a abstinência corroendo os momentos agradáveis de seu dia. Sentia a abstinência tirando o gosto de sua bebida e o sabor da sua comida. Sentia tudo isso e se desesperava mais. E quanto mais desespero, menos textos. E quanto menos textos, mais desespero. Um ciclo vicioso e interminável de mau humor matinal se estendendo ao período vespertino e noturno, como uma praga, um câncer. Um Câncer da Absoluta Falta de Criatividade.

     

    Sofrimento. As vogais não se encaixavam na frase. Incompetência. Os verbos não se adequavam às sentenças. “Uma bosta.” Quem culpar? Com o que sonhar quando tudo parece se transformar num grande nada sem gosto? Nem comprar DVDs. Nem tomar cerveja. Nem comer pizza. Tudo vazio. “Culpa do mês das chuvas que fecham o verão.” Porém, sempre volta. “Que chegue logo o outono.” Calma, Tito, que de uma hora para outra volta. “Que chegue logo Abril.”

     

    Sem textos, Tito era apenas um Felipe sem graça. Tito praticamente não existia. Podia ser qualquer outra coisa menos Tito do fantástico mundo. Aliás, o fantástico mundo ruía sob o som de clarinetes desafinados que insistiam em tocar axé. Desafiar o som? Desdenhar da falta momentânea de talento? Não adiantava. Era preciso ter paciência. Deixar que a vida corresse, mesmo que fosse só para observar. Respirar sem viver por algumas semanas.

     

    E de um dia para o outro, a coisa toda simplesmente voltou. O primeiro sinal foi que a pizza ficou mais quente e gostosa. Daí, a cerveja voltou a ter sabor. Então, os DVDs voltaram a ganhar importância. Finalmente, a insônia se recuperou do nocaute do Câncer da Absoluta Falta de Criatividade. Por bem ou mal, o travesseiro ficou desconfortável demais para dormir. Foi aí que Tito se descobriu outra vez. Jogou longe o edredom. Sentou em frente ao computador. Não precisava mais procurar as palavras, pois elas o haviam encontrado. Estava tudo lá. Aquela coisa toda de escrever voltou. Aquele pouco de esperança voltou. Aquele pouco de gosto pela vida ganhou força. Tito respirou fundo, enquanto seus dedos martelavam as teclas. Alívio. O cheiro de cigarro que ele não fumou saiu pela janela aberta do quarto. Seu grito ecoou forte pela noite curitibana. Ninguém acordou, mas isso não importava. “Por enquanto não importa. Todos ainda vão acordar.” Frio. Insônia. Textos. “Eu voltei.” Ufa.