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18/02/2009 Insônia e féUltimamente, convivo com as dificuldades que acompanham o esquecimento. Por dias, esqueço quem sou. Parece que um acúmulo de atividades me leva ao mecanicismo até que o mundo me exige o brilho no olhar. Então, retorno ao meu posto mais humano e, nesse papel apenas, relembro quem sou com a facilidade do respirar. Porém, chega a noite sempre. Junto com ela, chegam as perguntas. Dúvidas crepusculares.
É como se eu voltasse a assistir o duelo entre homem e máquina. Os pontos de vista se misturam. A humanidade parece vencida, pois seu idealismo não convence nem mesmo aos puros ou aos ingênuos. A derrota do homem diante desse processo parece inevitável. Suas necessidades sobrepujam o resto do existir na medida em que crescem as cidades e não aumenta o planeta.
Em meio a essa completa falta de sentido das minhas idéias, vou até a janela. Busco as respostas para o tempo de solidão no simples. Sinto o vento no rosto. Tomo um chá gelado e respiro o ar das árvores próximas ao meu apartamento. Não encontro finalidade e, por instantes, perco minha fé. Perco espírito e alma e vejo se esvair tempo e juventude pelo ralo da lavanderia.
Nesse ponto, coloco o balde sobre o ralo. Tampo minhas saídas e fecho a fenestra. Abro a geladeira e guardo meu copo. Chego à cama e o lençol é preto e sem manchas. Deito sem conforto e peço à providência eventual do universo que minha fé retorne em consciência e acontecimentos.
Percebo, então, que o próprio clamar pela crença é sinônimo dela. “Nem tudo está perdido, Tito.” Levanto sem pensar. Quando dou por mim, estou no banheiro. Jogo as roupas para o lado e, no banho, sinto a vida que há na água. Antes de me secar, retorno à janela. “Deus! Como eu queria conversar com alguém agora!”
O vento é mais forte. Não há paz no ar nessa noite de agonia em que a insônia assola minha casa. Penso nos remédios para dormir. Contudo, quero sentir. Aspiro a viver o mundo na intensidade que a realidade se revela para mim. Refugo fugas. Subterfúgios não me servem.
Olho o telefone. O silêncio. A tela sem imagens. Apenas foto da janela de uma casa que não existe mais. Quanta saudade sinto. “Será que eu vivi de verdade o que passou?”
Volto para a cama. O lençol permanece negro. Levanto. Caminho. Chego ao sofá azul da sala. Deito. Observo a parede vermelha por detrás do aquário de pedras ágatas. Há verde de limbo pelas plantas de plástico. Há vida dentro das paredes de vidro, mas não há consciência de existir. Pelo menos, não vejo manifestação. “Existo de fato quando ninguém me nota? Minha consciência basta? Será que meu insignificante raciocínio basta para classificar meu tempo de solidão como vida?”
As almofadas não me seguram. Sinto meu corpo leve. Olho no espelho e me enxergo mais velho e cansado. Perscruto o sono em minhas pupilas. “Não há nada aí dentro, Tito. Esqueça-se disso. Deixe para amanhã.”
Sento e escrevo. Começo fazendo pouco sentido. Os verbos não se encaixam em seus tempos e acordos lingüísticos. Mudo tudo. Volto e risco a folha. Não encontro paz e recorro aos filmes. Uma estante repleta deles. Parece vazia de conteúdos e busco os livros logo ao lado. Encontro A Idade da Razão. Esmiúço algumas páginas e paro quando um sujeito pensa na outra personagem como a imagem do sadismo. Paro para pensar no fato. “Já vivi assim? Já amei assim? Já amei?”
A capa do livro é dura e as folhas amareladas me fazem lembrar que o comprei em um sebo próximo ao centro da cidade. Recordo do dia. Atravessera a praça repleta de gente com uma carta de recomendação na mão. Comprara esse livro e um do Tolstoi e ignorara o resto. Os escritores russos sempre me fascinaram. “O Mestre e Margarida emprestado de um grande amigo meu. Tenho que pedir novamente. Reler.”
Lamento pelas amizades que as semanas nos levam. Lembro das bolachas da sessão da tarde. Caminho por meus devaneios e confundo o que invento e imagino com o que de fato aconteceu. Escrevo com os pensamentos e volto à minha cama. Lençol escuro. Apago a luz. Retorno à vida, ainda sem fé. Duas horas de sono. Adormece meu mundo.
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