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26/02/2007 Segundos antes de mais um cinema solitárioTito acordou e a janela da casa do seu avô ainda esboçava um sorriso de paixão na forma de nuvem bem alto no céu. Vestiu a camiseta durante o despertar. Colocou o tênis no caminho para o carro. Acelerou até o cinema. Estacionou na primeira vaga. Sombra. E dela veio o som do carro parando. O olhar distante de Tito pediu um ingresso. Murmurou um obrigado, vendo o tempo correr. Como numa volta feita de vitória e silencio, passou os olhos pelos dvds da fnac. E o sorriso de paixão fez o tempo correr ainda mais. Numa enchente de pessoas, caminhou despercebido. Pensativo. “Pensador.” Ensimesmado. Como quem não ama há séculos. Como quem ama o dia todo. Como quem vive com letras e sonhos na cabeça. Sorriso de paixão na fila para a sala dois. Fila que fazia voltas. Voltas que contornavam os problemas da semana. Problemas que não existiam mais quando Tito se espreguiçou confortavelmente na poltrona. Colocou a carteira e o celular no lugar do copo de refrigerante. E teve vontade de escrever até mais tarde naquela noite, sem prestar satisfação. “De quê? Para quem?” Queria escrever para ela. Uma nova personagem. Personificação de feminilidade em cada tempestade de sentimento. “Talvez mais um holograma titânico de mulher perfeita.” - Como seria pessoalmente? - perguntou o vazio do cinema. Tito não tinha respostas para ela. Gostava que fosse assim. Respostas só estragariam o desejo desenhado com a paciência da distância e com o carinho da incerteza. “Carinho realmente desconhecido.” Promessas de canecas e mais canecas chope até as seis da manhã. Imagem que encantava. Beleza que as águas de março prometiam arrastar para ainda mais longe. As águas se aproximavam, mas o filme não começava. As poltronas eram ocupadas, mas ao lado de Tito só sentava solidão. Então, ele percebeu que o momento mais solitário do universo toma forma na poltrona vazia. No exato segundo em que as luzes se apagam. Nos instantes que antecedem os trailers. “Nem mesmo toda a pipoca do mundo poderia preencher este vazio.” Ele prestou atenção para poder escrever com precisão. Acontece assim: a luz apaga. Qualquer um poderia contar que passaram apenas uns três segundos, mas não para Tito. Ainda mais quando ele pensa na nova personagem. Então, cada um dos três segundos alardeia um evento. Evento da mais completa solidão. Preguiçoso o tempo faz graça e não corre. Desafia Tito a esperar que as águas de um outro mês qualquer a tragam de volta. De volta do mundo. Das voltas da vida. “Esperar. O pior momento para esperar é quando eu quero agora.” Há um certo sorriso de paixão em meio a tudo isso. “Paixão? Será?” Dúvida sem reposta e que não deve satisfação. “Realmente não existe nada mais lindo, mais solitário, que quando a luz do cinema apaga. O tempo espectralmente pára. A poltrona ao meu lado permanece vazia. Disfarçar seria inútil, penso baixinho. Sonho minha vida com carinho de adoração, porque o amor não pode ser tão injusto. Suspiro em melancolia. Olho devagar para cima e a imagino enquanto o tempo teima em se desfazer em pausa, silêncio e solidão.” 14/02/2007 Curitiba, Domingo de 2007.Caro Felipe, nos últimos dias, andei meio que desocupado. Vamos falar a verdade, andei bem desocupado e percebi que, devido a tal fato, você parou de escrever ao meu respeito. Como sei que você é um sujeito atarefado, não vou entrar em pormenores desnecessários, mas vou ter que falar sobre tudo que é pertinente por aqui. Sinto falta de seus comentários quase sempre verdadeiros sobre minha vida que, como você mesmo gosta de dizer, é um tanto quanto titânica. Pois bem, vou ser sincero porque acho essa coisa toda de ficar fazendo de conta é uma bobagem inventada pela sociedade para sustentar a leveza da hipocrisia. Bom, voltando ao ser sincero, o motivo que me leva a escrever essa carta é que seus comentários sobre minha vida fazem falta, mas, já que você aparentemente deu um tempo nesses textos, eu mesmo vou escrever o que aconteceu comigo no último fim de semana e você nem reparou. Eu acordei cedo com o barulho dos pombos no telhado. A coisa toda começou porque o telhado é meio que de plástico ou algo que o valha e porque os pombos gostam de pisar naquela merda logo de manhã. Enfim, acordei e percebi algo inusitado. Eu estava de bom humor. Você, melhor do que ninguém, sabe o quê isso significa. “Bom humor de manhã?” – pensei eu questionando a sagrada rotina dos fins de semana. Pisei no chão descalço e coloquei a cueca, para poder levantar e tomar café com o mínimo de pudor. O azulejo da cozinha estava gelado e fiquei um tempo parado para poder gravar a sensação. Balancei o dedão, dei dois passos e abri a geladeira. Tomei um suco daqueles de soja que os médicos dizem fazer bem para a saúde. Foi aí que eu pensei, em voz alta como todo bom patrício: - Porra, por onde anda aquele Felipe que vivia escrevendo um monte de merda sobre minha vida? A resposta me veio de imediato. Sobre o quê ele escreveria agora? Sobre azulejos gelados e suco de soja? Foi então que percebi o quanto minha vida estava monótona desde que decidi que ficar sozinho por um tempo era a melhor resposta. Tudo bem que, nesse tempo todo, aprendi muito sobre a minha pessoa “titânica”. Aprendi sobre uma ínfima parcela do que gosto e cheguei a conclusões inequívocas sobre o que não gosto. Detalhe: essa palavra “inequívocas” eu usei só para poder impressionar mesmo. Afinal, não queria que você lesse a carta inteira pensando que era um textinho pobre, podre ou prolixo. Então, voltando ao que descobri. Ah! Antes, lembrei de uma coisa, o legal de não ser um texto seu é que eu consigo dar mais voltas antes de chegar no assunto que realmente importa, percebeu? E também escrevo frases que parecem não acabar jamais porque é bom escrever assim sem pensar em acabar porque não tem sentido em pensar no fim enquanto a coisa toda se desenrola isso seria como pensar em morrer enquanto ainda se está vivendo ou pensar na sobremesa enquanto ainda tem macarrão no prato. Ah! E também esqueço das vírgulas. Eu sei que isso irrita sua alma de pseudo-escritor, mas força que uma hora a carta acaba. Então, voltando outra vez (ai! Essa doeu, ein! “Voltanto outra vez” é o cúmulo da redundância, mas nesse caso se aplica, pois eu tentei voltar uma vez no parágrafo anterior). Eu realmente aprendi muito nesse tempo de reflexão. Aprendi a estar mais comigo mesmo. Aprendi a aproveitar a minha presença no espaço que eu ocupava. Aprendi a valorizar o que eu tenho. Aprendi a valorizar meus amigos. Aprendi pra caralho. Acho que cheguei mais perto de saber quem eu realmente sou. E, quem sabe até mais perto do guerreiro do Castañeda ou, e isso seria muito bom se fosse verdade, do super-homem do Nietzsche. Enquanto isso, fiz coisas no estilo das desse domingo. Acordar com os pombos no telhado. Pisar no azulejo gelado. Ir ao meu vô para almoçar. Comer macarrão até não poder mais. Tomar cerveja com risada. E sentir aquele sono dominical se aproximar. Presta atenção nessa parte, porque talvez seja a melhor de toda a carta. Sabe, em domingos como esse, quando o sono chega, eu vou andando descalço (tudo descalço, tipo o Paul na foto da Abey Road) até o quarto do meu avô. Deito respeitosamente na cada dele. Vejo o vento entrando pela janela da sala e saindo pela janela do quarto. Sinto o vento passando por mim. Escuto o vento esbarrando nas folhas da árvore de ipê que fica bem em frente à janela. Chego a ouvir uma meia dúzia de flores caindo no chão e os passarinhos (que não são pombos) batendo asas, aparentemente sem motivo (a não ser que eles pulem da árvore, partindo num resgate desesperado das flores do ipê, que por sinal são amarelas, mas isso você já sabe). Daí, eu adormeço. Tenho os melhores sonhos da semana. Durmo como criança outra vez. Durmo e tenho sonhos de criança. Durmo como criança e tenho sonhos de criança. Nada de adulto nessa hora. Criança mesmo. Criança. Criança. Criança. Coisa de terra do nunca. Nada de problemas. Eu. Criança. Sonho de criança. Quando acordo, vou ao cinema. Sozinho. Sozinho e não tão mais criança. Mas, nesse domingo, fui pensando: - Por que o Felipe não escreve sobre isso? Então, eu assisti ao filme e a coisa toda terminou. As letrinhas minúsculas dos créditos subiram e não encontrei resposta. Por isso mesmo, é que estou escrevendo uma carta para pedir (mesmo não sendo seu maior fã, afinal seu maior fã é sua mãe, porque mãe gosta de tudo que a gente faz; e mesmo sabendo que eu te irrito com todos esses parênteses intermináveis no meio do texto): volta a escrever, Felipe! Abraço, Tito |
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