Felipe's profileO Fantástico Mundo de Fe...PhotosBlogLists Tools Help

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    2/10/2006

    Tá esperando o quê?

    Domingo de prova complicada. X=Y? Ein?  X>Y? Como?  X<Y? Será? “O esquema é marcar C em todas.” Como se fosse um gordinho glutão, Tito resolvia as questões da tal prova, mas pensava no almoço tipicamente italiano daquele domingo. Se X e Y são inteiros com X<Y, definimos X + Y como sendo a soma dos inteiros entre X e Y, incluindo X e Y. “Prova do caralho.” Porém, não era na comida que Tito pensava. Qual a média aritmética de oito números vezes Y, se acrescentarmos X números à média inicial. “A resposta deve ser X vezes a puta que pariu Y!” Imaginava os telefonemas de bastidores entre Lindinha e sua mãe. Se 2X = 3Y + 4Q,, qual o valor de blá blá blá. “Q o X se multiplique com o Y de quatro e Q o resultado seja maior que zero.” Tito pensava nas estratégias de reorganização familiar das duas mulheres mais importantes da sua vida. Domingo de provas e provações. Matemática da vida aplicada à realidade ítalo-curitibana de fim de semana. Almoço de domingo. Dia de brechas, arestas e frestas. Frestas para reatar laços. Arestas a serem lapidadas. Brechas para recuperar o sorriso perdido. Perdido durante uma operação ardilosa do insignificante divisor comum.

    A mulherzinha mesquinha que cuidava da prova avisou: faltam quinze minutos. Tito largou a caneta e saiu andando da sala. Jogou o X e o Y no quadrado da parede e dividiu sua angústia por dois. Lindinha já estava esperando no carro. O ar condicionado estava ligado. Ele entrou e sentiu o ventinho no rosto. Beijou-a com carinho e alívio. Respirou fundo. “E lá fomos nós para a casa do meu vô.”

    O silêncio do caminho denunciava a tensão da chegada. Quando aportaram na Vila Fanny, todos estavam na parte da frente da casa. Esperavam com brechas, frestas, arestas e sorrisos. Lindinha desceu do carro, mas Tito ficou sentado com seu mais novo amigo: o ar condicionado. Complicação. Amor sublime e orgulho estúpido numa batalha com destino certo. “Tenho que entrar. Afinal sou um homem ou uma coca-cola?” O ar condicionado soprava. Soprava e secava a cola que pregava Tito-coca-cola ao banco do carro. Todos olhavam para ele. Lindinha distribuía ois. “E eu paralisado.” Então, o avô de Tito veio com aquele seu jeito meio arcado de andar. Aquele jeito de quem carrega o peso de um mundo e de uma família nas costas. Veio, mas não sorriu. Apenas, abriu a porta do carro com sua “mãozinha” de italiano e perguntou: Tá esperando o quê?! Tito sorriu como já não fazia há algumas semanas. Sorriu. Entrou. Almoçou. Conversou. O amor sublime venceu. O orgulho estúpido evaporou no calor daquele domingo. Tito olhou para sua família e sentiu orgulho. Olhou para seu avô e reencontrou sua fé. Beijou Lindinha, a arquiteta de mais um dia perfeito. E, ao sair, pediu a benção dele. “Deus que te abençoe, meu neto. Ele me respondeu.” O caminho de volta parecia a raiz quadrada exata de um conjunto vazio de problemas. Nada de prova. Nada de provação. Nada de X ou Y ou tristeza ou dor. Nada de lágrima, raiva ou ódio. Lindinha ao seu lado. Ar condicionado ligado. “Tudo isso.” Lindo mesmo. Frestas. Arestas. Brechas. “Estou aprendendo.” Todo dia.

    2/1/2006

    O “Fator M” e o Mesmo Assim

    O tempo passa e ninguém repara. Pelo contrário, todo mundo fica só torcendo pra passar mais rápido. Nas ruas. Nas casas. Nos escritórios. Todos contando os minutos para as seis da tarde. As pessoas nem reparam em como as coisas mudam. E nem percebem como o que importa num dia, não importa mais no outro. E nem notam que, de um dia pra outro, as coisas ficam complicadas de verdade. “Como naqueles filmes de drama sobre a criança com câncer.” Os colegas casam, abrem a janela pra cegonha e se afastam de uma vez por todas. Então, a pessoa percebe como os amigos de verdade compõem um conjunto, cuja quantidade de elementos corresponde a um número primo que nunca passa de três. Sonhos partidos. Corações pesados. Famílias aniquiladas. Tito se encontrava nessa certa época da vida em que o “Fator M E R D A” se estabelece como parte da realidade. As pessoas passam a sorrir menos. Culpa do “Fator M E R D A.” Os problemas se agravam. “Fator M E R D A” outra vez.  As contas aumentam. “Fator M E R D A”, filho da P U T A! Os prejuízos financeiros, familiares e amorosos se espalham e contaminam o mundo. “Pausa. Tempo. Pausa. Só pra deixar claro que esses tais problemas amorosos não se aplicam ao meu caso. Rá! Eu tenho a Lindinha e as nossas páginas em branco sendo coloridas.” Ainda assim, o “Fator M E R D A” bate na P O R R A do ventilador. As pessoas que representavam um pedaço de fé no mundo viram as costas. E dá saudade do tempo em que pagar a conta de sorvete no armazém parecia um grande problema. “Saudade do tempo em que minha maior dívida era na banquinha de revistas.” Melancolia. Devaneios. Saudosismo. “Eu adorava revistas em quadrinhos, doce de abóbora e aquelas figurinhas do álbum do campeonato brasileiro. Maldito Fator M E R D A!” Ainda assim, vale a pena. Mesmo com toda a luta, dificuldade e tristeza. Mesmo com todas as porcas loucas que encontramos pelo caminho. “Não vão conseguir me derrubar. Nem Tia. Nem porca. Nem louca. Nem o conjunto três em um.” Aprende-se a viver de verdade. Mesmo com o “Fator M E R D A” a solta. Descortina-se o mundo sem a fantasia. E não é tão bonito nem justo, mas é isso que se tem. E vale a pena viver. Vale a pena continuar de sonhando. Vale a pena lutar pelo que se acredita e se manter sincero sempre. “Quase sempre para alguns, mas para mim o único caminho é verdadeiro.” Vale a pena amar com intensidade. Amar todos que permanecem no barco. Mãe que é fortaleza. Irmão que é felicidade. Lindinha que é paixão, amor e força. Ilma que é ilustríssima, excelentíssima, cuidadosa e paciente. Padrinho que é amizade e porto seguro. Filhos e filhas do padrinho que são fraternidade. Vale a pena. Mesmo com toda a decepção. “Mesmo com a saudade do meu Vô.” Saudade dele contando e recontando os resultados dos jogos de domingo. “Meu Vô. Minha Fé. Ele que nunca lembrava direito o nome do jogador que marcou o gol para o Coritiba.” Melancolia. “Fator M E R D A.” Devaneios. “Fator M E R D A.” Saudosismo. “Quando a força parece faltar, ainda lembro do que ele me ensinou.” Então, quando os motivos titânicos parecem desaparecer, outros imediatamente se constroem, tomam forma. “Tomam conta.” E nem que seja carregando o peso de lágrimas de dor ou de raiva nos olhos, Tito caminha. Já que, mesmo com toda essa nostalgia do viver, há luz e voltas no mundo. E mesmo com todo esse “mesmo assim”, mesmo assim, vale a pena.