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    17/11/2008

    Ser de amargar

     
     
    Carrego no meu peito uma sensação de constante desencaixe. Parece que, onde quer que eu esteja, não encontro a paz dos outros, perto ou envolta deles. Sinto que não há nada e, ao mesmo tempo, parece que tudo consigo com a facilidade de um farsante. Encontro nas páginas o que quero muito rápido e ando com as multidões desejando, almejando que todos me olhem e que eu mesmo me aceite como um só. Um qualquer. Um nada. No fundo, sei bem para onde vão as peças do tabuleiro após terminado o jogo. Enxergo com a clareza da luz de sol reto nos olhos do horizonte de final de tarde a importância da simplicidade, da humanidade. A distinção e beleza dos pontos de vista diferentes me fascinam. Olho como criança cada descoberta e aprendo a ouvir mais do que falar a cada dia que passa. Evoluo porque escolho tal caminho e me debato com coisas que me incomodam. Nem sei bem o que, acho que a impessoalidade que o mundo ganha com as aparências, com as ambições. Aspirações humanas que também conservo e que não nego. Não há orgulho, no entanto. Existe apenas confusão em meus olhos, quando vejo aplausos ou palcos iluminados por prêmios, egos e falsas declarações. Não sei explicar essa parte, mas faz parte dessa sensação de constante desencaixe que trago no peito.
     
    Soa-me como apelo irônico do destino que muitos confundam o meu jeito de olhar como algo agressivo, antipático e detestável. Meus olhos são daqueles que perscrutam o mundo meu e dos outros. Meu jeito não traz arrogância, embora a transpareça para aqueles que tratam meu carinho por aprender e ensinar com despeito. Há muita avareza nessa terra. Avareza de tudo e de todos. De posses e conhecimento. De paz e de guerra. Também vivemos num universo de incoerências climáticas e de atitudes. A competição constante e a vontade que temos de atrair o mérito e a vitória para perto do nosso nome nos transformam em monstros em um pântano de vaidades. Eu procuro pular isso. Acredito que minha naturalidade com as coisas que me conferem o ar de arrogância. Creio que não há beleza em botes, iates, carros importados, títulos e ortodoxias misturadas com pompa e estilo. Não troco nada pela genuinidade: das coisas, das comidas, dos gestos, das gentes, das cenas, das músicas e das letras. Coisas que me sensibilizam e que só fazem aumentar essa sensação constante de desencaixe que trago no peito.
     
    Trazem também consigo, como que queimando, a solidão de caminhar. Entre tanto, tão pouco. Não sei explicar também, como muito do que eu escrevo. È mais para aliviar a minha alma dos momentos em que, passo a passo, piso sozinho em salas e corredores. Sinto que não sei quem sou. Não pertenço. Não existo de fato. Apenas sou eu mesmo. Incomodo aos outros e vejo isso nos olhares. Desconcerto-me em cada esquina e aprendo em cada tropeço. Vivo como louco, delirante e solto. Vivo preocupado com o futuro e passado. Existo no presente. Subjetivo. Cheio de desejos e de vontades. Sou sangue e energia. Sou muito pouco perto do tamanho e importância dos atos, fatos e pessoas que carrego no peito. Bem no fundo do peito, junto com a sensação de desencaixe.
     
    Quando não ando com ninguém na hora do almoço, quando trabalho que falo pouco, quando chego em casa sozinho, há um nada tão grande que começa na boca do estômago e chega a esse peito marcado. Vem junto com o desejo de explodir, gritar, sumir. Acho normal sentir essa dor. Não há esperança que baste para me sustentar. As promessas de um futuro mais acolhedor e de paz e risos não passam de aspirações. Pessoas malucas que repetem erros pensando no novo dia de amanhã. Porém, em todos os outros dias que chamamos de ontem que já vivi apenas encontrei essa mesma sensação de desencaixe em meu peito.
     
    Nada vejo. Paro de escutar. Vivo perdido. Corro para cantos e me atrapalho cada vez mais. Magôo os outros com a facilidade de um matador de aluguel. Piso em ovos com quem está mais perto e menos pronto. Apenas sonho. Penso no amor que nunca vivi. Nas paixões que apenas desejei. Nas mancadas que vivo cometendo. Nas cervejas que já bebi. Nos abraços que neguei. Nos beijos que perdi. Na preguiça da manhã, tarde e noite. Nas amizades que não me valeram. Nas poucas horas de descanso. No descaso das pessoas com o mundo. No muro de lamentações da irracionalidade humana. No planeta que sangra. Nas pessoas que se afastam. Nas falaciosas promessas de sentimento eterno. Nos bons filmes. Na arte perdida. No que ainda se pode encontrar de arte. No timbre de voz. Na sutileza das palavras. Nas minhas letras. Nas nossas cartas de amor desperdiçadas. Nos anos perdidos. Na falta de chão. No frio na barriga que senti pela última vez quando criança. Nisso tudo e no amargo que carrego no meu peito por conta dessa sensação. Eu, simples, desencaixado do todo, do resto, do que importa e do que existe ainda menos que a unha do meu dedo do pé.
     
    04/11/2008

    Papos humanos

     
     
     
    Como sempre, escrevo o que sinto.
    Meio que ensandecido pela vida, sigo nessa peregrinação de letras.
    De texto em texto.
    De consoante à vogal e consoante e vogal de volta.
    E não faço a menor idéia de onde vou parar.
    Sei que há algo que me incomoda nos últimos tempos.
    A importância perdida no olhar das pessoas diante umas das outras.
    Quero gente de verdade.
    Quero ver o lado humano sobrepujar o horizonte.
    Sem esse troço de sentir com as entranhas, de nada valem as palavras.
    Seria como um belo quadro apreciado por um cego.
    Palavra só se sente com humanidade.
     
     
    Tito sentou no banco e pensou em lágrimas passadas. Veio até o gosto amargo na boca. Abriu uma cerveja e mandou tudo embora. Era o único jeito. Se não era, parecia. Nesse meio tempo, amigos e amigas chegaram. Atravessaram a soleira da porta, tocaram o piso com sapato sujo e abriram a geladeira. Eles preferiam vodka. Também tinha. “Sempre tenho”, pensou Tito, “e gosto muito de observar as pessoas sentindo prazer nas coisas. Sabe como? Aquele negócio dos primeiros goles de bebida. Aquele sabor da batata frita. Essas coisas de gente que mora sozinha e oferece o que pode, como eu. Como tanta gente. Acho que a solidão é o resultado de todo meu trabalho. De todo meu empenho. O vazio vem junto, mas não me atrapalha. Apenas existe e fica lá no canto do meu peito feito um leão rouco. Não sei me explicar.” 
    De fato não sabia. Não sabia tanta coisa. Era como colecionar ignorâncias. E, ao contrário do tempo da imaturidade, quanto mais aprendia sobressaia-se a falta de conhecimento. Logo depois da segunda cerveja, parou de beber. Sentiu o vento da janela sobre a qual gostava tanto de escrever. Os amigos riram. Tito riu junto feito criança que era. Corou quando percebeu seu lado mais juvenil aparecendo. A genuinidade lhe parecia desconfortável. Porém, não abria mão de ser verdadeiro. Ainda mais com quem vivia tão próximo ao seu coração.
    Das cervejas se fizeram as cadeiras. Sentaram-se, então, em meio à sala, cozinha e olharam o resto da noite passar. Até os pássaros começarem a cantar feito alucinados, permaneceram na conversa. Falaram de trabalho, chefes, vida, amores, paixões e da diferença entre as coisas. Discutiram músicas, famílias, dinheiro e a falta que as coisas fazem. “E tudo que é meu nesse mundo se desfez em meio ao sono do meu lar solitário.”