Felipe's profileO Fantástico Mundo de Fe...PhotosBlogLists Tools Help

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    11/28/2005

    Relatório de Tristeza e Mágoa

    O olhar de decepção vem sempre acompanhado de um sorriso cheio de mágoa. Naquele domingo, havia chuva de verão e vento forte e gelado. Tito sentia a água cortando suas costas enquanto andava desorientado pelas ruas de uma Curitiba sem muita esperança. Nunca havia se sentido tão descoberto, tão desprotegido. Sua exposição a um mundo cheio de novas tempestades fazia lágrimas escorrerem teimosas pelos cantos de seus olhos. Piscava forte. Forçava as pálpebras. Sem enxergar coisa alguma, olhava para cima em busca de respostas. “Nada.” Olhava para baixo também. “Nunca se sabe quem está disposto a responder.” Aquela garoa fina cortava a roupa, a pele e a alegria de Tito. De repente, suas lágrimas secaram. “Ou se confundiram com a chuva.” Porém, o sorriso de mágoa permanecia. Olhares desconfiados numa rua nada maternal. Expressões ignorantes e rudes pareciam perguntar sobre o que se tratava a sua tristeza. Sobre o que se tratava seu sorriso de mágoa. “Sobre o quê?” Mais lágrimas na chuva. Soluços para estranhos. “Como faço para não morrer sufocado?” Como enfrentar problemas nunca antes manifestados? Nada se compara ao sarcasmo do destino. Da vida. Daqueles que sempre cuidaram e estiveram por perto. “O que aconteceu? Como fomos nos distanciar assim de uma hora para outra?” Justamente na hora que ele se sentia mais feliz que a própria palavra que define tal sentimento tão complexo e tão almejado. Lutar. Sorrir. Continuar sonhando. Ele entrou em seu mundo. Passou da rua chuvosa para sua cama aconchegante. Lindinha estava lá. Sorriu daquele jeito só dela. Tito sentiu um abraço leve e intenso. Cobertor e roupa quente. Beijos e carinhos. Fechou a janela para a chuva não entrar e dormiu sabendo que havia alguém ao seu lado. Apenas o silêncio da noite enxergou suas lágrimas.

    11/22/2005

    O senhor da casa das risadas

    Viagens por universos de risadas e sonhos começam despretensiosamente. Primeiro chega um convite informal daqueles que todo mundo diz “claro que vou”, mesmo que não seja verdade. É igual quando a mãe pergunta: “você faz um favor pra mim?” “Claro que faço!” Pronto! Conflitos evitados. Discussões contornadas. Depois dessa etapa completamente descontraída, vem a parte sentimental. Essa não tem como negar, mentir, enganar. Amigos de verdade sempre vão. Amigos que sintonizam os próprios sonhos em mundos paralelos cheios de aventura e imaginação nunca mentem. Amigos, desses que são amigos pra valer, sempre estão por perto, mesmo quando estão geograficamente distantes. “Afinal, o que são 380 quilômetros?” Foi assim, quase sem notar, que Tito se enxergou dirigindo um fiesta 1.0 com destino a São Paulo. Um feriado inteiro de risadas inesperadas aguardava-o. Lindinha, como desde o sempre que teve início quando se conheceram, estava ao seu lado. Músicas e estrada. “A voz de quem amamos soa sempre só melodia.” Buracos e caminhões. “Todos os carros de Curitiba na estrada.” Mapa bem desenhado. Telefonemas e mais telefonemas. Vários quilômetros e algumas horas depois, chegaram os dois a seu destino. “Com a bunda quadrada, com sede e com fome pra caralho.” Calor, churrasco, cerveja e piscina. “E esse é só o começo!” Uma família linda: Cidão, Naty, Diogówski e Ailton. Uma mesa cheia de piadas. “Mas piada assim de morrer de rir ou piadinha daquelas de sorriso amarelo?” Melhor ainda: piadas sem fim de Ailton. Brincadeiras que faziam Tito recordar de um tempo de infância sem preocupações. Tempo em que viveu como uma criança cheia de idéias, livros, futuros e sonhos. “Aliás, quando criança, eu sempre imaginei os grandes escritores se esvaindo em lágrimas enquanto escreviam suas obras.” Porém, todas as risadas e gargalhadas de uma São Paulo ensolarada por uma alegria inebriante despertaram uma nova consciência titânica. “As tripas e coração que Bukowski encontrou nos livros de Fante nunca clamaram por lágrimas copiosas.” À beira da piscina, luzes, cliques, brilhos e olhares cheios de significados se transformavam mentalmente em letras e palavras. “Frases repetidas. Alegria com sabor de salmão e sonho de goiaba.” As vogais e as consoantes se juntaram antes mesmo que Tito sentasse em frente ao seu teclado mágico e se utiliza de todas as chaves das portas secretas de seu mundo fantástico. “Eu vivia e respirava numa dimensão daquelas perpendiculares de tão paralelas.” O único medo, desespero ou tristeza era saber que aquilo tudo acabaria na noite de uma terça-feira cinza de um novembro ensolarado. Mesmo assim, Tito e Lindinha esconderam tal pensamento em uma caixinha e colocaram esta atrás da pasta de dentes, bem no fundo da mala. “O que significa o nada da realidade quando se vive o tudo que só aparece um pouco antes de acordar?” Chamaram aquele que mais sorrisos espalhava pela casa: “Ô, AIUUUUTÔÔÔÔÔ!”. Pularam na piscina de água cor de tempo-parado-infinito-apaixonado e Tito só voltou a escrever porque nunca mais despertou.
    11/11/2005

    O Melhor Ano de Nossas Vidas

    Som alto. Televisão ligada. Garoa lá fora. A chuva caía mansa dentro de uma casa pequena de Curitiba. A goteira ressoava solitária nos vários DVDs empilhados. Um filme certo num domingo aparentemente sem importância. Palavras bem escritas, interpretadas e pronunciadas podem mudar a vida de qualquer pessoa com imaginação. “Minhas decisões importantes sempre nascem em meio a lágrimas e a tempestades.” Tito assistia concentrado a um episódio agradável da primeira temporada de The O.C.. Risadas com o sarcasmo apurado do personagem Seth Cohen. Descontração. Momento de prazer e relaxamento. Foi então que uma frase do personagem vivido por Peter Gallagher lhe chamou a atenção. “Em uma conversa daquelas que me fazem gastar uma pequena fortuna em DVDs, ele disse para um outro carinha lá, que não lembro o nome, que o melhor ano da vida dele havia sido quando ele tinha 22 anos.” Lágrimas e tempestades. “Será?” Nessa mesma hora, Tito tomou a decisão de transformar aquele ano, que começou com um pedaço de merda caindo do saco do Papai Noel, no melhor ano de sua vida. “Minha metralhadora giratória de resoluções definitivas entrou em ação.” TacTic TacTic. Ao perceber que de janeiro a dezembro tinha muito pouco tempo, decidiu usar o calendário biológico titânico para sua radical mudança existencial. “Só pra deixar claro que no meu calendário o ano começa em 26 de abril do ano cristão e termina em 25 de abril do ano seguinte também do calendário cristão (fazer o quê?).” Assim sua saga por uma vida menos ordinária começou. Passou a escrever mais. “Como um alucinado insone.” Eliminou qualquer espécie de sentimento, bom ou ruim, por quem não o amasse com a intensidade com a qual ele enxergava a vida. “Chega de amorzinho mais ou menos.” Jogou fora cartões velhos. “Pra que guardar essas porras?” Comprou um tênis novo. “O meu já tava furado e eu, de alguma forma, estava associando isso à minha infelicidade.” Sorriu mais. “E por que não?” Fez mais piadas. “Devoto fiel do sarcasmo.” Tomou mais cerveja. “Corrigindo: suco de cevada.” Aguçou o sarcasmo e o humor negro que tanto lhe aprouviam. “Mas que coisa! Já falei sobre isso!” Foi vivendo um dia após o outro. “Naquele esquema dos alcoólicos anônimos mesmo, mas sem aquela viadagem toda de ficar sem tomar nenhuma gota de álcool.” Respirando e escrevendo e confundindo um com o outro. Encontrou amigos para uma vida toda. “Mercedão, Diogowki.” Descobriu nos que já tinha uma amizade maior do que esperava ou, talvez, merecia. “Polenta, Tio Chico, Tia Jussara, Kikit, Rafazilda, Espanhola Mala, Franzoca, Homer, Bruce, Felipe, Magui, Lilão.” Amou quem o amava pela amizade que oferecia, sem esperar nada a mais ou a menos que isso. “Pra que esperar e não aproveitar o que se tem?” Comeu pizza todo sábado com a família que amava. “Tio que é padrinho e melhor amigo, primos que amo sempre.” Percebeu mais do que nunca a muralha nada metafórica que sua mãe se transformava cada vez que ele precisava dela. “Sempre perto, mesmo longe. Um amor que toma conta e que sinto me abraçar, envolver, esquentar, acolher e proteger.” Enxergou mais do sempre em seu avô um exemplo de força e de fé. “Fui até na novena e passei a conversar com Nossa Senhora. Santíssima Mulher Gente Fina Pacas!” Mandou pra puta-que-o-pariu os preconceitos alheios. Sorrisos ao invés de lágrimas. Tormentas transformadas em projetos, textos, contos e roteiros. “Mais ajuda de mais amigos que jamais esquecerei. Rica e Maninha.” Entre trabalhos, cervejas e sorrisos, encontrou-a. “De lá pra cá, é Lindinha pra cá e pra lá.” Nunca mais olhou pra trás. Descobriu a felicidade que não foram capaz de ensinar ou mostrar, na escola ou na vida. “Temos que viver para entender.” Arrumou emprego fixo e terminou uma pós-graduação aparentemente incompreensível, assim como o domingo aparentemente sem importância que mudou sua vida. Gostaria de dizer que sorriu para sempre, mas que espécie de melhor ano de uma fantástica vida é feito só de sorrisos eternos? “...o melhor ano da minha vida tem de tudo, menos ponto final...”

    11/1/2005

    E Chuva que Deus Mandava!

    Hora do almoço. Tito caminhava distraído na rua. Direita. Esquerda. Atravessou a Brigadeiro Franco sem se preocupar com o carro branco que buzinava. “Assim que gosto de andar nas ruas de Curitiba: sem me preocupar muito.” Passou em frente ao Shopping Omar tentando imaginar alguma coisa, mas precisava de um começo. Qualquer coisa! “Almoçar sozinho pra mim é almoçar com minhas histórias.” Ouviu a voz de uma mulher daquelas que não sabem manter uma conversa restrita ao interlocutor: “E chuva que Deus mandava!” Passos firmes em mundos de nuvens imaginárias. E Tito já enxergou a Praça Osório e suas árvores todas com a tal chuva que o tal Deus da tal mulher mandava. O clima úmido aumentava a vontade de andar. Mais nuvens. Mais passos firmes. Direita. Esquerda. “Quanto pedestre!” Gente que Deus mandava. Quando passou em frente ao Palácio Avenida, já havia sido transportado para seu próprio mundo. “Viu só? Qualquer dia, vou e não volto mais! Nunca mais me deixem almoçar sozinho!” Árvores tortas por todos os lados. Pessoas com rostos caricatos. Desenhos animados enjaulados ocupando o espaço destinado às lojas do mundo real. Animais exóticos por toda a Boca Maldita que gritava o nome de Tito. Gritava e perguntava o que ele queria comer. “Que fome!” Rugidos do leão de seu estômago em resposta. Conversa que vai além da compreensão humana. Além da capacidade daqueles que nunca sonharam ou que já desistiram de seus próprios sonhos. Direita. Esquerda. Sempre direita. Na vitrine de uma livraria escura - o único estabelecimento comercial que sobreviveu à invasão das jaulas e das árvores tortas e das nuvens misteriosas e dos seres desumanos caricatos – brilhava um livro. Um livro com o nome de Tito na capa. As caricaturas ambulantes paravam para olhar o brilho. Voltavam espantadas o rosto para Tito dos cabelos molhados pela tal chuva que o tal Deus da tal mulher mandava. “Chovia torrencialmente na minha cabeça.” Ele descortinava as gotas para enxergar a expressão de surpresa dos caricatos diante do encontro do livro com o autor. Criador e criatura se encontravam num universo paralelo-lúdico-imaginário. Imaginário ou real? “Quem sabe um dia.” Entrou na jaula do elefantasma e comeu um sanduíche sobrenatural e tomou um copo de leite desnaturado. Olhou pro relógio, secou o cabelo e voltou pro trabalho sem nuvens, pensando: “Quem sabe um dia aparece um tal de meu livro do nada, como a tal da chuva que o tal do Deus da tal mulher mandava e mandava e mandava...”