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    26/01/2009

    Aos amigos que jamais perdemos

     
     
     
    "...em meio às surpresas dos sonhos, o fim do sossego..."
    Tito
     
     
    Entre a falta de perfeição dos dias, chegam os finais de semana. Eles me vêm trazendo as novidades dos sabores da vida. Em meio às minhas neuroses e desejos - tantos desejos - encontro sempre um espaço para deflagrar a energia que armazeno no bolso e no coração para tão esperados dias.
    Entre os que melhor recordo, sempre estão os últimos e aquele particular no qual me reapareceram amigos. Reencontrá-los é como achar uma nota de cem perdida ou que nunca existiu no bolso da jaqueta de inverno. E eles sempre voltam, os de verdade sempre voltam.
    Então, a música começa a tocar e a festa continua como se nunca tivesse parado, como se não houvesse nenhum minuto da vida entre o último encontro e a última cerveja e essa que se faz presente.
    Foi assim que os reencontrei. Com o mesmo espírito, com a mesma vontade e sede de sempre. Rimos das coisas tristes e declaramos o quanto a vida afasta. Mas ela une também, fiz questão de frisar. Também disse que nada, nem mesmo a tal da vida, leva embora o que nasce em amizade. As recordações permanecem. Aquilo que se compõe do mais intenso da existência não se desfaz, meus amigos.
    E assim se foi a sexta, entre abraços e canções. Entre um chope ou vodka, traga mais garçom, nessa mesma mesa, nesse lugar daquela rua estreita que tanta vida acumula na forma de bares. Andar por seus paralelepípedos da entrada e de saída me recordam da Curitiba que já foi declarada perdida, mas que reencontro em amizades.
    O sábado também veio, mais amigos com eles. Feijoada de tarde. Família e aniversários quando o sol se põe. No inverno da noite, o Largo da Ordem por perto, mais paralelepípedos. Esse lado mais antigo da cidade traz mais recordações, conversas e abraços de como se fosse ontem. Não passa mais o tempo, nem os dias sem que eu diga a importância de todos.
    Acredito que sempre ando tangenciando essas rodas todas de pessoas tão importantes. Jamais fui elo em nenhuma. Já me ressenti por essa minha incapacidade. Porém, hoje aceito e agradeço com o sorriso da pouca maturidade que conquistei na raça.
    O fato de observá-los de fora me permite gostá-los ainda mais. Eles me acolhem e aceitam, mesmo sabendo - como eu sei - das minhas características de estranho nessa terra de rotinas de suas sinucas e de suas casas.
    Sou da terra do meu próprio lar. Sou do tempo do de vez em quando. Sou assim e gosto das minhas decisões mal planejadas. Eu me aprendi, descobri um pouco mais de mim mesmo nesses anos. Eles, como amigos que são, aceitam. Não são as ligações nos aniversários que jamais lembro ou as partidas de futebol que sempre desmarco ou as viagens para perto em que perco o celular que me definem como amigo, ainda bem.
    Eles sabem e, com o conhecimento dessa verdade, chegam as surpresas. E, em meio às surpresas dos sonhos, o fim do sossego. Música. Cerveja. Bar. Abraços. Sorrisos. Amigos. Meus amigos, vamos para a festa para comemorar nosso eterno reencontro.

    19/01/2009

    Mas sua filha gostava (eu acho)

     
     
    “...a melodia, a paisagem, a transparência da vida,
    perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.”
    Carlos Drummond de Andrade
     
     
    Essa é a parte menos interessante de uma história de ficção trágica. No entanto, é a parte que vale a pena escrever pela estranheza da seqüência de eventos nela inserida. Tudo começou em um dia de faculdade em que ela entrou de vermelho. Tinha um colar – se é que dá pra chamar disso – que chamava a atenção, junto com seu olhar castanho. Sorria para qualquer um e um desse grupo de pobres quaisquer assustados se tratava de um rapaz ainda ingênuo que, devo admitir, nada se parece comigo mais. Naquele primeiro dia de tanta novidade, tudo me encantava, ou seja, posso dizer que eu estava predisposto a gostar de alguém e de não esquecer o primeiro olhar que ela jamais lembrou no tempo em que ficamos juntos. Não importava. Pelo menos, não parecia importar, mas em se tratando de idealismo essas coisas contam pontos, matematicamente resumindo.
    Enfim, dessa manhã se seguiu uma tarde, assim como acontece na lógica temporal dos dias. Nessa tarde me aproximei. Perto dela em uma espécie de comemoração por estarmos ali na universidade. Enfim, essa comemoração envolvia humilhação de nós, pobres calouros. Um ritual que me parecia válido de passar por naqueles dias.
    Daí para frente, a vida seguiu seu rumo e das tardes fizeram-se noites diárias até que, em um final de manhã, seguiu-se um almoço, uma peça de teatro e um beijo em banco antigo de praça de tantas lembranças. Era aniversário dela. Namoramos de então até os nossos muitos finais de relacionamento. Lembranças que o final derradeiro deixou comigo, como consolo e cruz.
    Demorei um pouco para conhecer a família dessa menina que me fascinava cada vez mais com a novidade dos beijos apaixonados. O dia foi trágico. Alguém havia morrido, alguém da família dela. Não vale a pena citar por respeito à memória dos mortos que jamais conheci.
    Como bom moço, fui abraçá-la no cemitério Parque Iguaçu. Nunca havia ouvido falar. Perguntei ao meu avô. Ele sorriu com minha disposição pela bela e me deu as coordenadas. Passei por dentro do parque Barigüi. Não chovia. Uma entrada em meio às árvores e curvas. Não tinha certeza de caminho nenhum. Segui apenas porque meu avô havia dito. Cheguei e a beijei com carinho. Apropriado e preocupado. Ah, sem esquecer que eu estava morrendo de medo de conhecer a família. Ocasião funesta, devo admitir. Foi assim, fazer o quê? Fato destacado sem embaraço por uma das suas muitas irmãs. Disse oi para todas. Oi também para a mãe e o pai. Claro que não poderia dar certo. Imagina só quem conhece os pais da namorada no cemitério e vive para se tornar genro. Pouco provável, eu conheço os fatos. Sem ressentimentos.
    Enfim, nesse dia, tive a impressão que o pai dela não gostou de mim. Não era pra menos. Eu daria razão para ele nos dias de hoje. O cara preocupado com o enterro e aparece um intruso beijando a filha dele. Claro, com carinho apropriado, eu sei, mas mesmo assim deve ser de foder pra um pai.
    Ele era desses sujeitos taciturnos. Nunca escondeu a falta de simpatia por mim. Trocou poucas palavras comigo ao longo dos anos de relacionamento. Claramente me evitava. Coisa da minha cabeça? Vamos aos exemplos: viagem e o intruso – no caso eu – com a família. Ele ficava a maior parte dos momentos em que eu estava em casa conversando com os vizinhos da outra casa: crianças na maior parte. Preferia os infantes ao namorado da sua filha, escolha óbvia. Aliás, não posso ser injusto, nessa viagem ele falou comigo: pediu para eu lavar a grelha da churrasqueira. Uma beleza de sogro. E o pior de tudo é que eu gostava do cara. Ele tinha seu jeito ensimesmado admirável e cuidava das filhas e da família como eu não estava acostumado. Adorava ver aquilo, principalmente por sua noção de justiça: não gostava de mim e não tentava agradar, disfarçar ou qualquer tipo de hipocrisia. Devo admitir, era torturante sentar ao seu lado nos domingos de sofá azul e televisão. A programação ruim e o silêncio. Depois de uns meses, eu até parei de tentar puxar assunto e vivi uma grande piada inventada por um apresentador ruim de televisão em seu momento de improviso patético. Porém, o cara era genuíno e a filha dele gostava de mim. Eu acho.
    E escrevo isso hoje, pois a história – da mais pura invenção da minha mente doida – me veio à cabeça hoje quando visitei o mesmo lugar em que o conheci. Não foi só essa lembrança que me apareceu. A recordação da saudade meu avô com todas as coordenadas da vida com certeza foi a mais forte. Por isso mesmo, decidi escrever a mais engraçada.

     

    18/01/2009

    Volta às letras, voltam as letras

     

     

     

     

    Mas outras vezes, mesmo de dia,

    mesmo acordado, mesmo de olhos abertos

    (ou fechados, tanto faz),

    ele espia para dentro. E aí vê

    coisas que muita gente não consegue ver.

    Ana Maria Machado

     

     

     

    Sem direção, chegaram ao fim os dias de descanso. Como quem nunca escreveu, passei em memória minhas letras e refiz em lembranças minhas páginas em branco. Levantei, bebi e sorri como criança inconseqüente de tudo e de todos. Não medi perdões, frases e abusei das proparoxítonas. Sem saber de nada, desfiz e refiz quem sou. Aproveitei das situações decisivas para ser evasivo e abusado. Ah, nada de especial e um tudo na medida do meu viver. Quem me viu e quem me vê sabe, como o Chico saberia, que não se reconhece quem estranho soa aos olhos e ao passado. Aliás, revistei minhas memórias e passei por tempos idos com a saudade que o Machado diria que deixa um quê de gozo e de dor.  Atos cometidos como pecados dessa grande janela para o mar e que cabem no breve espaço de beijar do Drummond. E se o Carlos já sabia disso, aprendi com suas páginas e mais algumas de alguns sujeitos como o Ernest, o Jack, o John, o Leon e os milhões de contos ao pé de ouvido de uma mitologia sonhada em dias de lençol com perfume em fins de semana de devaneios. Que sempre fique esse sentimento de tranqüilidade desses meus 26 dias, mesmo número do mês quatro ao meio-dia e quinze. Que depressa passe tudo que odeio sem rancor e que se prolongue o convívio de quem amo e dos lugares nos quais permanecem pedaços de minha alma. Alma perdida em pensamentos que se vão ao sabor dos ventos e dos perfumes. Perfumes da vida que se esvai na medida menor em que é desfrutada. Sobram minutos e com eles vem o conhecimento. Sem livros ou autores. Aparecem do mesmo sentimento que respiro da janela na volta para casa. Ao que é conhecido e adorado como santos ao pé do altar. Mãos postas em sinal de contrição contraditória sem arrependimento ou vontade de pedir perdão. Novamente faria tudo e, até mesmo, o muito mais que sempre sonho. E, já que ainda não escrevi do brilho do olhar, que o meu nesse ano de 26 nunca feneça.