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1/18/2006 AmenidadesQuarta. O calor deu um tempo. O vento era agradável. Alugar um apartamento não era fácil. Tito ainda roia suas unhas. Sua mãe sorria daquele jeito dela outra vez. Seu irmão continuava o mesmo. “Minha Lindinha cada vez mais linda.” Tito sentia orgulho do rumo da sua vida. Sentia no ar o cheiro da mudança. “Pra melhor, pra melhor.” Calor. Vento. Apartamento. Unhas roídas. “Orgulho da minha mãe.” Irmão na mesma. Lindinha. Paixão. Mudança. “Quanta coisa!” Tudo mudando. “Pra melhor, pra melhor.” A porca louca afundando na lama da solidão e da maldade. “Quanta coisa pra uma quarta-feira.” E ainda tem o vento. Vento forte. Vento que passa pelos botões da camisa. Envolve o corpo. Devolve energia e força. “Força!” Quanta força pra uma quarta-feira. “Minha mãe sorrindo e caminhando ao meu lado outra vez.” O horizonte claro. As unhas roídas. Lindinha e travesseiro. “Que venha a quinta-feira.” Janeiro passa rápido como tristeza. Raiva também vai embora de uma hora para outra. Ódio? “Às vezes, fica um pouco, mas é bom que seja assim.” As unhas roídas também ficam. Sempre estiveram ali. “Que continuem.” Que a quinta-feira seja cheia de vento e apartamento. “Que meu irmão continue sorrindo e caminhando ao meu lado.” Mudança. “Que minha mãe sinta orgulho.” Lindinha. “Que o amor e a paixão sempre se misturem.” Janeiro. “De muitos outros.” Travesseiros. “Sempre macios e cheirosos.” Quinta-feira. “Que venha.” Com vento. Sem porca. Sem maldade. Como mais uma quarta de amenidades e mais amenidade. “Pra melhor, pra melhor.” Mas que, nas unhas e no vento, Tito encontre a força da próxima semana. E que as amenidades do próximo texto destelhem casas. Que o próximo texto envolva o horizonte e corroa unhas. Que devolva a energia àqueles que merecem. “Que todos coloquem a poltrona na posição vertical e apertem o cinto de segurança.” 1/11/2006 E minha tia tambémNaquele dia, Tito gritou, proclamando. Que se guarde a bondade e a benevolência para quem realmente as merece. Naquele dia, as palavras correram livres pelo papel. Então, Tito escreveu. Que se ponha de lado já e para todo o sempre a hipocrisia e a mentira. Assim escreveu Tito. Que se conclame a destruição de tais artifícios vis, que ao longo de todos os tempos arruinaram e fizeram perecer e apodrecer as instituições sociais. Assim escreveu Tito. Que se reconstrua a família em base sólida de virtude e amor. “Libertemos toda a fúria da intolerância sobre os porcos e loucos.” E a verdade descortinará uma paisagem tranqüila. Assim escreveu Tito. E o peso do mundo se precipitará sobre ela. Assim escreveu Tito. E a ira dos justos será mais forte que os sofrimentos e as provações por eles vividos. Assim escreveu Tito. E as lágrimas dela mancharão seu presente e futuro como reflexo de um passado de maldade e insanidade. Assim escreveu Tito. E as labaredas da dor e da vingança libertarão a gargalhada gloriosa da vitória há muito ansiada. Assim escreveu Tito. E celebrar-se-á pela sede finalmente saciada. Assim escreveu Tito. E a justiça voltará a construir morada no coração dos que sonham com intensidade. Assim escreveu Tito. Água para quem tem feridas. “Nunca procurei em mim um santo, mas sempre me mantive correto.” Crenças. Religiosas, políticas ou familiares. “Sempre segui o caminho traçado por tudo aquilo em que acredito e confio.” E, no tempo em que um fio tênue separa a velha desequilibrada da solidão, Tito assim escreve. “Pois, às vezes, é só o que me resta.” 1/4/2006 Passo AdianteHora de decisões importantes. “A mulherzinha simpática que limpa o escritório querendo me arrancar do meu computador.” O relógio de parede fazia seu barulho de agonia mais característico. Nada. Nada de decisão. Ao invés disso, Tito fechou os olhos. Fechou os olhos e fez o que faz de melhor da vida: imaginou. Imaginou como sua vida seria se fosse um ladrão de diamantes. Imaginou como executar um plano mirabolante. Idéias que envolviam alguns pontos interessantes. Um mergulho numa praia do Caribe. Um diamante da coleção de Napoleão Bonaparte. A Salma Hayek. “Opa, espera aí! Alguém já imaginou isso!” Idéia número dois. Atropelamentos. Tito imaginou algumas pessoas que não gosta. Bang! Enxergou-as caindo sobre a carroceria de um Chevette prateado qualquer. “Ah! Muita Violência para essa hora da manhã! Nem tomei café ainda.” A mulherzinha simpática ainda rodeava a mesa de Tito. “Agora com o aspirador na mão.” Nada de decisão. “Criatividade! Vamos apelar para as idéias!” Respirou fundo. Diamantes. Chevettes. “Minha tia porca e louca sofrendo de dores abdominais.” Nada de original mesmo. Nada novo. O jeito era decidir. Sim ou não? Mais dois anos. Mais um curso. Mais um passo enorme em sua vida? Mais um peso. “Quem vai querer ler isso?” Talvez esse fosse o ponto. Ele estava escrevendo menos do que precisava. E a escolha de palavras aqui é exata. Precisar escrever. Precisar respirar. Precisar comer. Precisar de mais um monte de coisas. “Mas o tal do ter atrapalha tanto.” Idéias. Precisava de idéias. Soluções. O passado já foi. O presente, de alguma forma, está intimamente ligado com a decisão para um futuro mais do que próximo. Passo adiante. Passo de desistência? De arremesso? De arremedo? Ou passo de pezada no destino inflexível? “Ah, sei lá.” Todo mundo pode ficar confuso um dia. Porém, Tito não permite a si mesmo tal possibilidade. “Possibilidade que eu chamo de fraqueza.” Tic Tac. Decisão? “Vou escrever nem que eu não durma mais...” E? “Não me interrompe que não terminei!” Ah! Termina então! “...e vou fazer a inscrição pra essa merda só de raiva.” E foi assim. Assim que ele se acalmou e decidiu não fazer inscrição nenhuma. Decidiu e, como sempre, sentiu-se bem com isso. “Agora é hora da força pra não olhar pra trás.” Diamantes. Chevettes. “Beijos da Lindinha que eu tanto amo.” Alívio. Fortaleza. Passo adiante. “E sem esquecer o meu passatempo preferido: amaldiçoar minha tia porca e louca.” O tic tac nem incomodava mais. Soava apenas como uma lembrança de um jacaré. Um jacaré da única história infantil que Tito ainda sentia o gosto e o cheiro. Água salgada. Vento no rosto. Piratas e Meninos Perdidos. Menino que encontra seu caminho. Que vida, ein! 1/2/2006 2006, Ano Novo Outra Vez?Começar desde Janeiro o que se tem certeza que vai acabar em Dezembro. Pra que comemorar? Pra que celebrar? Outra vez o calendário judaico trouxe Tito ao ponto onde começou o ano anterior. Um ponto pontuado pela incerteza de um futuro próximo. Um ponto de interrogação seguido de uma exclamação aterradora. 2006 promete?! “Promete o quê?!” Pra quem?! “Pra mim?!” Tem eleição. “Que se o povo tiver juízo vai terminar expurgando do planalto central a corja de barbudos-semi-analfabetos-populistas-disfaçados-de-metalurgicos-de-um-passado-esquecido.” Tem Copa do Mundo do pão e circo que serve para colocar um sorriso na cara de um povo tão sofrido quanto o deste país que também prometia tanto. “Sorriso ou apenas mais lágrimas?” Mais tristeza para se misturar com as lágrimas e o sofrimento da fome, da miséria, da falta de educação e do excesso de corrupção política com ponto de exclamação. Dirceu! Delúbio! “Minha tia porca e louca!” Valério! Lula! PT! É tanta lama que se escorrega na tristeza e dá risada. Sujeira. Corrupção. Sarcasmo em CPIs. 2005 foi um ano de sonhos despedaçados. Mas o que se poderia esperar de um governo que nomeia o tal do Gil pra Ministro da Cultura? Cultura?! “Eu nunca sonhei que esse governo daria em nada melhor do que uma piada cabeluda ou barbuda.” Mas chega de 2005! “Vamos falar de 2006.” O ano que alguns já comemoram extasiados com vinho espumante, uvas doces e lentilhas secas. Mas, afinal, pra que sonhar tão alto? Por que começar tudo de novo? “Por que temos ou devemos?” É o limiar entre a falta de opção e a tomada de uma decisão que nos faz dar um passo mais firme. Que dois mil e seis não seja apenas mais um ano ou um número. Que dois mil e seis seja um grito com ponto de exclamação e reticências e etc e tal. Que dois mil e seis seja o ano da vida de todos que fazem de tudo para que alguma coisa aconteça. Coragem! Que dois mil e seis seja. “E vamos deixar pra comemorar depois.” |
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