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11/4/2009 “Back to the land of sugarcane”
“Driven by a desperate hunger
To the dark of the neon light Oh the heart is a lonely hunter When there's no sign of a love in sight” Grayson Capps
Eu não espero discorrer sobre amor em mais nem mesmo um texto. Quero apenas escrever sobre voltar para a terra em que tudo parecia mais fácil, a morte mais distante e os cabelos mais longos. Quero voltar para um tempo em que sonhar era preciso, precioso e possível. Quero mais querer, não apenas em verbo banal e repetido em meu texto. Quero querer no sentido mais pueril que se consegue obter na vida.
Parece que o tempo passa e as noites viram dia muito rápido. A rotina consome meu encontro comigo mesmo e deixo para depois e para amanhã. Mas não sou mais o menino que poderia ser tudo na vida. O destino me ofereceu a possibilidade de chegar mais perto de pessoas semelhantes e minha escolha – meu constante não ao trivial – levou-me para um isolamento de olhares. Querendo eu mesmo ou não desejando jamais, acostumei-me tanto com o escuro do meu quarto e da sala de parede vermelha, aquário vazio e das canções só minhas daquele violão quebrado de logo que chego em casa depois de cada dia cansativo de trabalho e aulas. Acostumei-me a tal ponto de me perder na frase, pois ela me parece enfadonha e longa demais para ser para sempre.
Perco-me nas minhas notas, minhas próprias palavras e insisto em escrever sobre um eu mesmo que não sei direito quem é. Sou o pouco que conheço e acho curioso pensar o que serei em anos. Já não serei mais o político keynesiano, o cineasta do estilo italiano do Bertolucci ou o cara que foge para um velho continente qualquer. Já não serei mais um pai antes dos 26 anos, não serei tio antes dos 27 e não serei mais neto dentro em breve. Não sei mais o que serei. E o “não” se repete com o “querer”. Não, não e não. Neguei tanto que me encontro aqui, reacionário, idealista e imaginando coisas – meio paranóico, alguns diriam. Sei das coisas que jamais chegarei perto de ser e não faço idéia do que sou de verdade quando penso nos outros.
Só ouço falar, nada concreto, portanto.
Não sei nada dos outros. Seus olhares alheiros pouco me dizem. Seus pensamentos não são claros. Suas vidas passam pela minha, nos esbarramos. No fundo, perco-me nas paredes de cores e nas janelas fechadas ao vento. Por hoje sou uma série de coisas que não seguem ordem linear no dia. Qual hora? Em qual ordem? Me confundo no escuro da luz neon. Nem sinal do resto ou solução. Não há tempo pra nada.
“We have to go back.”
10/15/2009 Oh, Mestre! Ser Mestre! Todo semestre!(foto que representa todos os alunos que já passaram pelas salas em que estive, todos que têm meu carinho como mestre e que muitas vezes nem fazem idéia disso. Todos os meus queridos alunos de: Administração, Jornalismo, Marketing, Publicidade e Propaganda e Relações Públicas).
Não vou negar, não é do meu feitio. Não posso negar, na verdade, pois é evidente meu encontro comigo mesmo. Cada passo para dentro de uma sala de aula é como se eu chegasse mais perto de ser verdadeiramente um cara que se encontrou na vida. Não dá pra ter certeza, afinal de contas a gente muda sempre e evolui e muda mais um pouco. A vida é um ciclo virtuoso e estou aqui para ser melhor do que fui ontem.
Porém, já nos primeiros dias como professor de alguém eu vi que gostava da coisa. Com 23 anos dei meus primeiros passos como docente de forma oficial, ou seja, foi a primeira vez que eu ouvi alguém me chamando de professor pra valer. Pra falar a verdade, no começo é assustador. A responsabilidade pesa e faz transpirar. O pensamento vai longe e a primeira coisa que se pensa é no dia em que a gente era aluno, espero nunca esquecer isso. Espero jamais negligenciar meus sonhos como estudante, pois os tempos mudam, mas os jovens alçam vôos parecidos com os das gerações anteriores. Lembrar isso faz um professor ir além, faz pensar e agir com ainda mais vontade.
Ainda assim, umas aulas correm bem, outras são conturbadas. As turmas pensam diferentes e se comportam de formas diferentes. Os alunos têm motivações diferentes e minha primeira lição como professor foi a de aceitar os fatos. Simples assim: têm dias que eu acerto, têm dias que não. Aceitar que eu erro e me lembrar disso para melhorar sempre foi meu primeiro aprendizado. Admitir publicamente os erros é ainda mais nobre e, como tudo que se caracteriza como tal, ainda mais difícil. Sempre busco, tento, almejo e procuro. Consigo às vezes. Tudo bem, como eu disse, a gente não nasceu para acertar em tudo, ainda mais quando se é Mestre.
O segundo aprendizado foi um que eu tinha lido num livro do Buk, mas que só fui entender de fato quando vivenciei as palavras do velho safado. Ele disse que o estudante universitário é um sujeito descente e quer ser tratado com respeito. É verdade, sabe. Alguns estudam mais, outros parecem nunca ter estudado. No fundo, todos são merecedores de respeito, independente disso. Só que, novamente, vem a realidade: nem sempre eu acerto.
Há turmas, alunos e salas que fazem a semana se arrastar. São desafiadores, difíceis e questionadores. Esses nos fazem ir além como mestres todos os semestres. Outras turmas são atenciosas e receptivas, dá até pra dizer que são humildes o suficiente para aceitar o conhecimento como base metafísica de algo maior que almejam para suas vidas. Essas turmas dão força para que todas as aulas sejam as melhores, as fáceis e as difíceis.
Não imagino mais minha vida sem essas variações. E uma das coisas que mais gosto de pensar é na qualidade individual de cada um que passa pela minha aula. Uns eu lembro o nome, outros não. Uns eu chamo mais a atenção, pego mais no pé. Outros recebem elogios. Alguns são voluntariosos e outros preguiçosos. Contudo, com a dose certa de boa vontade, não vejo mediocridade o que é uma grande qualidade comum a todos.
Assim sigo. Como mestre todo semestre. Lembro-me com carinho dos meus, tanto os da infância quanto os da universidade, especialização ou mestrado. Guardo um carinho especial para os que me ensinaram com grandes aulas e bons exemplo e reconheço a importância de todos que me mostraram defeitos e me ensinaram a ser ainda melhor. Espero deixar essa marca agora que estou do lado de cá. O lado dos docentes, dos Jedis e dos heróis que lutam todos os dias para preparar seus pupilos para serem melhores do que eles mesmos jamais sonharam em ser.
Essa é a verdadeira “melhor aula da semana”.
9/23/2009 O homem e seu tempo
“O homem é um homem do seu tempo, ou é de tempo nenhum.”
Allan Sales
Escreveram-me essa frase em um pedaço de papel e eu, sempre fascinado pelas folhas e suas palavras, li ávido, mas fiz de conta que não me importava. Só que, depois da hora certa, fiquei meditando sozinho sobre o assunto. Passei pelo carinho e pelo escuro que ocupavam as linhas do caderno e me concentrei na frase do cearense que eu só ouvira falar que existia.
Claro que o dono da tal frase discorria sobre sua obra que era como um reflexo de seu tempo. Já a remetente da frase, de forma bem menos sutil, queria me chamar a atenção para a vida que se esvai e nos carrega nos braços ou nos larga no caminho. Aparentemente é uma escolha. Minha escolha. Ou pulamos no barco, carro ou trem da vida ou ficamos sentados sozinhos nos trilhos.
Só que eu, como eterno insatisfeito, como o cara que sempre busca um jeito diferente de fazer as coisas, em grande parte pela clareza com que a vida se revela aos meus olhos, gosto de caminhar pelas estradas mais solitárias. Gosto de encontrar a natureza que é indiferente aos desejos humanos. Não quer dizer que eu não me atraia vez ou outra pelas escolhas mais fáceis e pelo jeito mais solto de viver.
Só que passei da fase hedonista e acredito em tantas coisas que me restam poucas esperanças sobre muitas.
Por conta disso e da maldade, têm dias que acordo com tanta indignação que não tenho nem vontade de falar. Meu mau humor sobe pela garganta numa forma de queimação e me envolve o corpo todo de tal maneira que sigo inerte e absorto em minha rotina de semana, trabalho, luz amarela ou pálida no céu – de sol ou lua – e anos que passam com tamanha facilidade que a confundimos com o desprezo de Deus.
Sinto que não fui esquecido apenas porque tenho meu discernimento como escolha de vida.
Essa escolha me permite afirmar que sou um cara do meu tempo, do meu próprio tempo, tempo que é só meu. Pertenço aos meus valores e crenças e esse é meu sentimento de mundo. Claro que piso na bola, o tempo todo, aliás. O erro é a única coisa que garante minha sobrevivência e me aproxima do prazer. E o prazer é a última coisa autêntica da humanidade.
Então, minha resposta é simples.
Não sou deste ou de outro, pois sou um homem de tempo algum.
“Qual deles? Qual hora? Quando? Era pra responder?”
Se ninguém diz nada com clareza, por que diabos eu tenho que começar?!
9/10/2009 Como eu virei um cara sério e chato: um compêndio de descontentamentos
Vou começar pelos questionamentos metafísicos do poeta da página em branco (e do blog vazio). Eu abandonei momentaneamente e por um severo bloqueio criativo uma das coisas que mais gosto de fazer: colocar idéias soltas no papel. Aparentemente, perdi tato ou noção de paladar literário também. Tenho lido pouco. Os trocentos livros mensais foram reduzidos a períodos esporádicos de mergulho em autores profundos o suficiente para não me permitir levantar por dias, horas ou segundos. O que importa é a intensidade, dizem. Dizem muita bobagem, o fato é esse. Aliás, falamos demais. Sonhamos demais e esperamos que o troço meio que caia no meio da estrada e que de preferência tenhamos um carro com teto solar para nem precisarmos estacionar ou nos abaixar pra pegar o troço no meio do caminho. O problema é que sempre preferi andar. A pé percorro minhas distâncias e meu pensamento vai junto meio que perdido e clamando: “escreve, vai, qualquer coisa.” Descalço, o que é pior e bem mais cheio de vida. E passam os dias. Meu olhar vai ao infinito, encontra o horizonte e de lá volta mais triste. Uma reação simples e inevitável. Há quem diga que me escondo em minha própria caverna, ou melhor, que sou um daqueles mexicanos com o maior chapéu do mundo e que fico lá dentro e só saio para cumprir meu papel social. Pronto. Acabou o texto de volta. Assim, simples e inevitável, com mais da metade da página em branco. O que importa é a intensidade, dizem. O fato é que dizem muita bobagem. 8/6/2009 O sol, a gripe espanhola e as fronteiras do mundo (se há simplicidade, eu caminho)8/5/2009 Platéia, horas, dias e muito “vamos lá”
Com o primeiro passo, veio uma dor de barriga intensa. Era o nervosismo diante de uma platéia. Muito a dizer, um papel marcava tudo dentro de uma pasta preta dessas de plástico mesmo. Havia uma mistura de perfumes de várias pessoas de idades diferentes. Os vestidos balançavam nas escadas e cadeiras e ele parado contemplava tudo como que perdido, extasiado e empolgado pela importância daquele evento em sua vida. “Primeiro, espero que de muitos.”, ele repetia consigo mesmo. Despreocupado e tenso. Atento a tudo. Pernas que não param. Pés nervosos que balançam. “Mais um gole de água, ok, tudo vai dar certo.” Ok, vamos lá. Seu nome reverbera pelo microfone. Chegou a hora. Inesquecível. “É incrível viver no limite das coisas, o resto é conseqüência.” 6/12/2009 Há algo de insano no reino de nossas cartasCara amiga,
Não lhe chamo mais de estranha, pois as letras aproximam a ponto de não nos desconhecermos mais. A informação pertinente a respeito do apreço etílico também nos conduz a uma linha de pensamento para lá de ousada em termos de intimidade, ou seja, dessas coisas que importam de verdade, já sabemos.
Ainda assim, penso muito – até demais – que o jazz tem peso ainda maior. Só que isso não é assunto leviano qualquer para abordarmos em parágrafos curtos de cartas que poucos lêem. Guardemos, portanto, para a pessoalidade.
No mais, sinto que há algo de insano no reino de nossas cartas. Ou no texto. Texto. Carta. Reino. Enfim, deu pra notar que você não é daquelas pessoas chamadas de “normais” pela imensa maioria equivocada, mesma maioria que aprova o governo barbado. É engraçado que essa excentricidade nos aproxime ainda que não-geograficamente. Geralmente, essa é uma característica que me leva a não me achar em meio a esse bolo de coisas que não entendo no pensamento alheio e que leva os que me cercam a não me olharem com lá muita simpatia.
E, já que comecei a cartear a respeito, devo insistir que a insanidade e a falta de normalidade é um negócio interessante de conviver com. É como se eu tivesse que fazer de conta em vários momentos pelo meu bem e dos outros. Meu bem, eu digo, no sentido de manter emprego e coisas do gênero. E quanto ao bem dos outros, não me refiro a nada que ultrapasse o limite das leis – não sou psicopata, sociopata ou qualquer desses tipos de patas – mas simplesmente para eu não sair dando uma de Zaratustra ou de narrador da jornada do último cavalheiro do apocalipse.
Ainda assim, sou exagerado confesso. Apaixonado declarado por essas letrinhas que insisto em juntar. Crônicas, cartas, livros, contos, bobagens e parangolés. Escrevo ao mesmo tempo ou já tentei escrever em vida, sono, princípio ou desejo. Sou desses. Não há jeito. E, como diria o velho Buk, é um troço que nasce com você.
Respondo, portanto, sem outra escolha. As letras me convidam e, se as minhas chamaram as suas, tanto melhor.
Tito. 6/10/2009 Cartas às estranhasCara ex-estranha,
É engraçado pensar que se renovam os laços com quem jamais conhecemos após um breve (re)apresentação formal. Jamais nos distanciamos, se pensarmos bem no assunto. Fato esse que depõe a favor da nossa amizade.
Bom, vamos aos fatos ou à simples falta deles: não tenho muito o que dizer. Imagino que, mediante alguma resposta sua, talvez, o conteúdo me salte à frente da imaginação. O que é apenas criado passará então à realidade e quem sabe uma descrição linear das coisas. E você sabe como são as coisas.
O que posso dizer por hora é que a possibilidade de um papo, um jazz e um destilado me parece atrativa o suficiente para que eu jamais negue seja qual for a ocasião escolhida. Tenho um fraco para essas coisas, mas devo frisar que o destilado não é minha bebida. Os fermentados sempre fizeram parte da minha rotina familiar. E sou um conservador quando o assunto é família.
Entretanto, preciso que saiba: sou mais fã do mistério que da verdade. Procuro a realidade inventada que foi profetizada pela Clarice e me confundo com meus próprios mundos criados pelas mentiras contadas pela minha imaginação fantasiosa.
Por hora é isso. Não suma e responda, ou não. Fecham os ciclos e as cartas, mas nossa amizade permanece a mesma.
Letra após letra.
Tito. 4/13/2009 EpifaniaEle, por alguns instantes, viu o mundo de cima.
Todos estavam lá, em seus pensamentos. O que havia de pensado, vivido e acontecido se encontrava lá. Então, revirou-se na cama como quem remexe no próprio passado. Sacudiu o presente e fez planos para o futuro próximo e para o distante.
Esse era seu jeito de fazer as coisas acontecerem. Programar antes lhe parecia reconfortante. Soava como uma certeza da prioridade para o próximo passo.
E ele seguia. Mexia-se em sua cama, levantava de quando em quando, mas permanecia com o corpo estatelado, estático e parado. O movimento se dava apenas em consciência.
Ele, por alguns instantes, viu o mundo de cima.
Logo, pulou-lhe o primeiro misto de memória e de devaneio à mente. Havia sol. Entrava pela janela da infância. Lá fora, o quintal da casa de seu avô. Sua avó ainda viva ali, ao seu lado. Ela e aquele sorriso doce que reservava apenas para ele. O sorriso entrecortado pela tosse tuberculosa do pulmão doente. Ela mexia em algo do quintal e ele corria de um lado para o outro, sentindo-se protegido e indestrutível. Corria como se fosse o mais veloz dos meninos. Chegava próximo à felicidade antes desta lhe escapar em preocupações que não deveria conservar naquela idade. Ela lhe falava. Dirigia-lhe a voz terna e sincera das avós que amam.
Outra memória. Ele escrevendo. Escrevia madrugada adentro em seu computador velho. Trocava textos e elogios com pessoas que ainda não conhecia direito. Ele não se conhecia. Não acreditava em elogios e as ofensas o destruíam. Continuava menino.
Mais uma. O dia em que várias pessoas morreram, ou melhor, todos os dias em flashes rápidos. Sua reação em cada morte. Seu jeito de fazer para não encarar as coisas. Seu jeito de viver a excitação da perda antes que a tristeza tomasse conta. Sua fuga inofensiva do luto eminente.
Entrevistas de emprego. Momentos no trabalho. Novos desafios. Seus dias em sala de aula, sentado ao fundo. Seus dias à frente da aula. Seus dias de outras cidades, de praia, de prédios, de areia, de cerveja e de música. Suas horas mais agitadas se transformando em nada, na tranqüilidade do nada.
Espalhou ao mundo o amor que conservava pelas pessoas que admirava. Descobriu quanto amor podia sentir ao mesmo tempo. Descobriu a tristeza da falta de propósito. Mergulhou em pensamentos sobre suas escolhas e enxergou a diferença do caminho das opções corretas. Censurou a si mesmo pela fraqueza da alma, pelo apetite perdido, pelas preocupações que não envolvia humanidade.
Tão vazio era seu discurso quanto seus pensamentos. Tão vazias suas escolhas diante da fragilidade dos dias, da incerteza do tempo. Não questionou nada dos rumos tomados no passado. Sentiu saudades aterradoras de quem não se ouve mais falar.
Sanidade parecia uma questão de mera opção. Resmungava consigo mesmo.
- Tão estanho esse mundo. Tão vazio e, ainda assim, passamos tanto tempo nos preocupando por nada.
E, por alguns instantes, viu o mundo de cima.
Concluiu que o propósito é algo que se perde ao despertar.
4/3/2009 Na aridez do pensamentoBetween the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
T.S. Eliot
Ano vazio. Nada de progressões aritméticas ou geométricas de desenvolvimento. Acho engraçado que justamente no vigésimo sexto ano, número que coincide com meu dia do mês de abril, eu não progrida nos degraus que quiçá me conduzem ao além-homem-mundano descrito pelo Nietzsche.
Sinto que sentei em uma cadeira confortável nesse primeiro trimestre. Minhas nádegas começaram a formigar e, ainda assim, não me mexi. Por comodismo ou pela inércia provocada pela rotina. Os motivos são diversos. Olho no espelho e, como em qualquer clichê literário, não me vejo. É como se, em minha consciência livre, eu tenha evoluído. Porém, estou sentado à beira de um degrau. Estático. Imóvel. Apenas observo com parcimônia o vento e o abismo.
Minhas escadas são suspensas. Não se ligam ou apegam a nada e não conduzem a lugar nenhum. Há vermelho na atmosfera. O ambiente é árido. Não há transeuntes. Apenas minha imaginação, personagens da minha memória. Não olho para enxergar. Apenas sei das coisas. Os perfumes e cheiros fúnebres me chegam como numa sensação doida de torpor. Não me importo. Olho a paisagem e me embriago com minha própria vista. Aquilo me pertence na mesma medida que me domina e possui.
Sou um escravo das escadas agora. Neste ano de reflexão e mudança no mundo, penso. Atento a tudo. Mudo minha opinião, percepção e direção. Evoluo em suspiros de imagem sem ação. Fujo dos atalhos. O que me interessa é a evolução do caminho percorrido. No entanto, não levanto do meu degrau. Degrau de meses, de sentimento de tempo perdido.
Lembro do meu eu-menino e tenho saudades, mas deixo que me passe até que se eleve, transformando-se em outra imagem de minha adolescência que culmina no começo da juventude com a faculdade e a descoberta do amor que vem junto com o sofrer do rompimento cuja força me revira as vísceras apontando para especialização e mestrado até as salas de aula em que plenamente penso e sinto a vida que se esvai na medida em que tudo isso acontece em paralelo com o meu eu-corporativo e com o amor que confio à minha família que se reúne no sábado e todo domingo, mas, de uma hora para outra, vejo que acordei numa das manhãs das minhas quatorze horas e meia de trabalho diário e vejo a preguiça que me é como um indicativo cinza e triste de que estou estagnado neste maldito degrau.
Converso. Escrevo. Desabafo. Sinto que as paredes se aproximam. Sinto que ocupo um corredor vazio no mundo e, de imediato, transporto essa consciência-livre para a aridez da escadaria de ar e vento vermelho. Vejo que a paz é feita de enxofre. Quanta paz encontro nessa solidão de minha própria reflexão. Fujo, corro e volto. Volto para o deserto das minhas escolhas. Em menos de uma manhã insone penso em tudo isso e vejo, sinto minhas nádegas formigando. Eu e meu maldito degrau.
3/24/2009 Quem mandou escolher a vida?Pisei em falso. O primeiro passo nunca quer dizer nada. Não há certeza nos movimentos iniciais. Porém, o segundo, terceiro e todos os seguintes trouxeram consigo a tontura torturante do labirinto. Do labirinto da vida. Do emaranhado de idéias, pensamentos e tentativas. O dia passou devagar. Fiz de mim mesmo alguém mais forte do que jamais cheguei perto de ser. Resisti. Não escondi. Não há vergonha em meus defeitos. Não disfarço quando me perco no labirinto do meu ouvido médio.
O chão oscila sob meus pés. A plataforma que já foi firme me invade a alma com olhares que não me constrangem. “Sou mais forte.” Repito coisas em minha própria consciência até que elas se tornem verdade pálida em minhas escolhas. As escolhas, tudo que tenho.
Subi e desci escadas institucionais – as mesmas escadas que ligam o mundo dos vivos ao dos que já se foram. “Quantas lembranças.” Agarrado ao corrimão, não havia temor em meus movimentos lentos. Apenas ecoava longe o grito da torcida. Levei um, levei dois gols numa partida que acaba em três. Eu ainda não havia marcado nem mesmo um. O zero ao meu lado.
“Bom....”, eu pensei, “...nesse caso não tenho nada a perder.” A vitória já me escapara pelos dedos. Qualquer coisas que se conquista quando se está próximo de ser abatido – pela vida, pelo vento, pela volta – reluz em dourado. “Não espero mais nada de você, Deus-Rapaz-menino-perdido.” Inspiro e transpiro palavras fortes que não me fazem nada além de sentido estéril.
Não há tristeza. Minhas lágrimas secaram. Não há mais fé em meus pedidos. Resta apenas o que sou. Mais forte do que nunca, pois a pobreza da esperança me deixou. Despido disso e de traços, jogo para trás meus cabelos. Prendo-os pelo ouvido e caminho. A paz transborda de meus olhos e inunda meus gestos para com o mundo. Não há perfumes.
Sou eu mesmo, sozinho e atento. Triste quando a tristeza me conduz pelos braços. Feliz quando alguém se aproxima. Resistente quando por meu nome chama. Disposto para quem merece. Um terreno perigoso, alguns diriam. Uma surpresa. Uma decepção. Genuíno em minha auto-análise. Distante, sem dúvida. Inconstante, como tudo que vive. Isso porque, acima de tudo, vivo. Decidi viver noite passada.
3/18/2009 Mudanças da AlmaTem gente que diz que coisas simples podem provocar uma mudança muito grande na vida das pessoas. Eu achei que já havia passado por um série dessas mudanças. Muitas e uma depois da outra. Tudo indicava que sim. Ecoava no meu comportamento. Na minha postura perante amigos, família, conhecidos, pessoas e instituições. Perante tudo que importa.
Porém, nunca haviam me contado sobre as mudanças na alma. Não a ponto de me chamar a atenção pelo menos. Aliás, nem tenho certeza do que escrevo na maioria do tempo. Só sei o que sinto. Os gostos de comidas que gosto. O cheiro dos perfumes que me chamam a atenção e conduzem meu olhar para outros olhos. Enfim, os cheiros importam para conhecer as pessoas, mas não é esse o ponto. Pelo menos não é o ponto principal sobre o qual quero escrever.
O ponto é que, quando eu falo sobre a mudança da alma, lembro um filme antigo que vi em dvd. Tenho até uma cópia dele lá em casa.
Numa cena, um velhinho pegava na mão da atriz famosa. Sua pele preto e branco tocava na pele preto e branco dela. Tinha lágrimas preto e branco, relações familiares em preto e branco e abraços preto e branco. Havia muito cinza também e ele dizia que você nunca mais é o mesmo quando algo toca sua alma.
Os filmes, como os cheiros e gostos, também têm grande importância. Porém, não é disso que quero falar também. Não é o ponto.
O negócio com a mudança na alma é um constante estado de não saber direito o que está acontecendo. Um estado inerte e inevitável de transformação que faz com que as cores - assim como os cheiros, gostos, filmes, pontos e músicas - mudem de perspectiva.
Perspectiva: essa é a melhor palavra para descrever essas mudanças. Elas fazem com que o jeito com que você costuma se encostar na janela da lavanderia para ver o vento seja diferente. Você vê diferente. Sente de forma mais completa. Com mais bagagem. Com mais camadas e mais definição. Parece até que você não conhece mais aquele lugar ou aquelas pessoas.
Você olha ao redor e não conhece ninguém. No espelho, você se enxerga pela primeira vez. No silêncio, você encontra paz. Nas pessoas, pessoas. Suas expectativas diminuem. Claro, escrevo sobre as mudanças da minha alma. Meu próprio ponto de vista.
Não posso generalizar, você sabe como são as almas.
Ou melhor, ninguém sabe direito como elas são. Alguns dizem que pesa 21 gramas. Outros que são feitas de luz e que para a luz retornam. Eu acredito em bem pouco. Contudo, creio que ela diz muito de quem você escolhe ser como indivíduo. Para si mesmo. Para os outros. Para os espaços. Para a cidade. Para o mundo, seu mundo e mundo dos outros.
O único problema é que as mudanças na alma são fenômenos únicos e não extensivos. É o tipo de coisa que só acontece com uma pessoa. Não tem como dividir. Acontece com você, comigo, com os outros. Um a cada tempo, no seu próprio tempo. Não há previsão, agenda ou intensidade definida.
Algo é certo, é solitário e dolorido ver sua alma se transformar. É angustiante constatar essa solidão. Solidão que poucos tolos tentam retratar com suas pinturas, palavras e textos. Ignóbil. Socos no vento. Lutas contra moinhos.
Porém, nas quartas-feiras – sempre nas quartas para mim – algo acontece. Algo que há meses não acontecia. Algo de surpresa. Algo que envolve cheiros e meu olhar. Você vê alguma coisa que te chama a atenção daquele jeito que você gostava que as coisas acontecessem. Então e só então, aparece ela: a certeza. Certeza de que vale a pena esperar.
Ponto.
3/13/2009 Manual do interrogatórioEle sentou na sala de reunião. Sabia o que estava pela frente. Percebia bem as coisas. Por isso mesmo, sentou sólido. Ao mesmo tempo descontraído, mas formal. Era um desafio controlar as expressões faciais. Era difícil não contrair os músculos. Controlar as emoções. Havia razão na voz de seus interlocutores. No entanto, pontos de vista não devem ser impostos. Ele sabia bem. Sabia o que estava a sua frente, pela frente. Sempre teve intuição para essas coisas. Citaram o dia do desencontro de personalidades. Previsível. Ele sabia antes. A sensação de saber antes das coisas lhe permitia concentrar-se apenas em seu tom de voz e em seus músculos faciais. Sabia também que contraia o maxilar quando ficava puto. Não poderia ficar puto, pois sabia bem. Concentrou no maxilar no começo, dessa forma. Concentrou-se também nas rugas perto dos olhos e no franzir de sua testa. Pensou que uma face sem expressão poderia entregar o jogo para seus interlocutores. Afinal de contas, ele sempre falava. Mas agora que sabia melhor, não havia vontade ou necessidade de falar. Também não movia a perna. Balançar a perna é sinal de fracasso, todo mundo sabe. O mundo acaba sob pés trêmulos. Ele sabia bem nesse dia. Segurou-se à mesa. Destampou a caneta, mas logo largou. A mesa e a caneta. Largou tudo e pensou novamente no maxilar. Estava escorregando. Precisava se concentrar. Lembrou de um personagem da televisão. Pensou na vista de um campo de trigo. Pensou no dourado do campo e olhou profundamente para os segredos de seus interlocutores. Não abriu energia, nem espaço. Ele sabia melhor lidar com aquilo agora que sabia das coisas. Saber é decidir, disso ele tinha certeza. A certeza é forte. Fortalece. Relaxa o maxilar. A certeza é pedra contra tesoura. Não há força maior nessa sala. Lembrou-se de quem era. Lembrou-se de pessoas importantes e de quem era para essas pessoas. Relaxou as mãos e pousou as palmas gentilmente sobre as mesas. Nem maxilares, nem mãos. Nada o denunciava. Havia a paz e serenidade em seus olhos. Havia compromisso e profissionalismo. Não havia emoção. Ele mandava seus descendentes italianos se calarem por segundos. Não havia maxilares ou italianos em seus ouvidos. O ácido de bateria de suas veias cedia à frieza de sua razão. Repousava nela sua emoção. Uma molécula da sua essência. Suas vísceras sob o pano preto. Uma misteriosa neblina cerrava seus olhos a cada piscar. Piscar sem rugas. Não havia como decifrá-lo. Os interlocutores ficavam doidos com isso. Ele sabia. Percebia a reação deles. Sua frieza superior e inesperada incomodava-os. Ele sabia. Eles não sabiam que ele sabia. Controlar a informação é ter poder, ele sabia perfeitamente.
3/11/2009 Ao sabor das águasEm tempos de mudanças, não há trajetória. Simplesmente mudamos direção e sentido das coisas em busca das respostas que os homens procuram desde o início dos tempos.
Não tenho como explicar o que acontece comigo. A dinâmica é similar. Meu coração dispara nas esquinas e eu imagino quem encontrarei naquela nova rua que se descortina a minha frente.
Imagino também o número de passos que precisarei dar até encontrar. Imagino um rosto conhecido e desenho em sonhos as costas de uma mulher que não desejo mais. É estranho como a imagem se materializa em perfumes de passado.
Desperto. Retomo meu foco. “Não sei mais o que esperar do amor.” Chego a essa conclusão do mesmo jeitão que algumas águas de certos oceanos permanecem plácidas. Sou eu. Eu andando pela rua e, mudando minhas direções, altero o sentido do mundo. Caminho. Passos. Mais passos e nada de pegadas.
No entanto, cansei da superficialidade das coisas e do mundo. Quero mais e decido começar de volta. Não tenho medo de derrota. Não desespero diante de dificuldades e não retraio meus sonhos. Eles avançam amorfos, contudo.
E piso em terrenos, empregos, lajotas e tijolos. A aridez dos dias encalacra como pó em meus dedos do pé. Sob as minhas unhas. Sobre meus cabelos que já foram mais longos.
Penso no que me levou a cortá-los e se descortina a certeza à minha frente. Como perdemos tempos e dias. Desperdiçamos nossa energia em preocupações com assuntos sem importância metafísica. Eles não nos definem como seres humanos. Nosso posicionamento como indivíduos, isso sim nos caracteriza. Nosso passo certo. Nossa postura firme e correta.
Entendo melhor o que meu avô me dizia hoje. Amanhã saberei ainda mais e recordarei com ainda mais saudade. A verdade do que passa é definitiva. As rugas são inevitáveis. O trabalho é fundamental. A família vive e faz nascer. Meus valores são minh’alma.
Esqueça a dor. O tempo é ágil. Frases definitivas que não são minhas ecoam em meus pensamentos. Reverberam-se em meus textos. “Sobre o que escrevo?” Quem sente para viver, lerá com os olhos certos.
Respiro.
3/1/2009 Sobre Ernesto e Loiras
Ernesto, escritor, carrancudo e apreciador de cerveja. Gostava do futebol na medida em que este lhe proporcionava prazer. Também nutria sentimentos especiais por uma loira, bela loira, completamente alheia ao universo sobre o qual os mortais pisam. Ele achava graça do jeito maluco dela. Achava engraçado que não houvesse linearidade em seus parcos encontros naquela cidade desolada que habitavam.
Ele, aliás, culpava o local pelo início dessa espécie de beijos espaçados na linha do tempo. A pequenez da província que aspirava se tornar grande cidade ocasionava encontros inescrupulosos com pessoas que já se havia encontrado em tempos passados há poucos meses, anos, destinos. Enfim, a pequena porta da cidade e suas aparentemente únicas duas janelas de fuga de emergência fizeram com que se encontrassem. Assim foi e Ernesto gostava de quadros, esqueci de mencionar.
Do encontro original, poucos se sucederam. Ele, como escritor de medidas e de números de horas, continuava achando graça com seus quadros. Pinturas, dias sem beijos, letras no papel. Ele escrevia sobre a loira. Mal sabia sobre ela. Conhecia apenas o que amigos em comum anunciavam aos quatro ventos. Não se importava. Achava graça e continuava com suas letras, seus quadros também.
Em seus textos, não havia nada idealizado. Apenas as figuras de expressão que aparentemente faziam o serviço da vida cheia do desencontro dos dois. Então, ele imaginava. Fazia de conta que palpitava seu coração a cada sinal de vida dela. Não era verdade. Ele entendia a natureza daquela mulher e não esperava transformá-la. Era sua própria essência que Ernesto gostava, sua essência loira e ele gostava também de seus quadros e letras. Adorava repetir idéias.
Numa de suas muitas, após copos literalmente incontáveis de cerveja – ele tentou numerá-los, mas se perdeu logo após o sétimo – ele decidiu dar um basta.
Depois de dias, ela o chamou para sair. Engraçado que ele sempre preferiu as morenas. As morenas, as letras e os quadros com muito azul.
2/18/2009 Insônia e féUltimamente, convivo com as dificuldades que acompanham o esquecimento. Por dias, esqueço quem sou. Parece que um acúmulo de atividades me leva ao mecanicismo até que o mundo me exige o brilho no olhar. Então, retorno ao meu posto mais humano e, nesse papel apenas, relembro quem sou com a facilidade do respirar. Porém, chega a noite sempre. Junto com ela, chegam as perguntas. Dúvidas crepusculares.
É como se eu voltasse a assistir o duelo entre homem e máquina. Os pontos de vista se misturam. A humanidade parece vencida, pois seu idealismo não convence nem mesmo aos puros ou aos ingênuos. A derrota do homem diante desse processo parece inevitável. Suas necessidades sobrepujam o resto do existir na medida em que crescem as cidades e não aumenta o planeta.
Em meio a essa completa falta de sentido das minhas idéias, vou até a janela. Busco as respostas para o tempo de solidão no simples. Sinto o vento no rosto. Tomo um chá gelado e respiro o ar das árvores próximas ao meu apartamento. Não encontro finalidade e, por instantes, perco minha fé. Perco espírito e alma e vejo se esvair tempo e juventude pelo ralo da lavanderia.
Nesse ponto, coloco o balde sobre o ralo. Tampo minhas saídas e fecho a fenestra. Abro a geladeira e guardo meu copo. Chego à cama e o lençol é preto e sem manchas. Deito sem conforto e peço à providência eventual do universo que minha fé retorne em consciência e acontecimentos.
Percebo, então, que o próprio clamar pela crença é sinônimo dela. “Nem tudo está perdido, Tito.” Levanto sem pensar. Quando dou por mim, estou no banheiro. Jogo as roupas para o lado e, no banho, sinto a vida que há na água. Antes de me secar, retorno à janela. “Deus! Como eu queria conversar com alguém agora!”
O vento é mais forte. Não há paz no ar nessa noite de agonia em que a insônia assola minha casa. Penso nos remédios para dormir. Contudo, quero sentir. Aspiro a viver o mundo na intensidade que a realidade se revela para mim. Refugo fugas. Subterfúgios não me servem.
Olho o telefone. O silêncio. A tela sem imagens. Apenas foto da janela de uma casa que não existe mais. Quanta saudade sinto. “Será que eu vivi de verdade o que passou?”
Volto para a cama. O lençol permanece negro. Levanto. Caminho. Chego ao sofá azul da sala. Deito. Observo a parede vermelha por detrás do aquário de pedras ágatas. Há verde de limbo pelas plantas de plástico. Há vida dentro das paredes de vidro, mas não há consciência de existir. Pelo menos, não vejo manifestação. “Existo de fato quando ninguém me nota? Minha consciência basta? Será que meu insignificante raciocínio basta para classificar meu tempo de solidão como vida?”
As almofadas não me seguram. Sinto meu corpo leve. Olho no espelho e me enxergo mais velho e cansado. Perscruto o sono em minhas pupilas. “Não há nada aí dentro, Tito. Esqueça-se disso. Deixe para amanhã.”
Sento e escrevo. Começo fazendo pouco sentido. Os verbos não se encaixam em seus tempos e acordos lingüísticos. Mudo tudo. Volto e risco a folha. Não encontro paz e recorro aos filmes. Uma estante repleta deles. Parece vazia de conteúdos e busco os livros logo ao lado. Encontro A Idade da Razão. Esmiúço algumas páginas e paro quando um sujeito pensa na outra personagem como a imagem do sadismo. Paro para pensar no fato. “Já vivi assim? Já amei assim? Já amei?”
A capa do livro é dura e as folhas amareladas me fazem lembrar que o comprei em um sebo próximo ao centro da cidade. Recordo do dia. Atravessera a praça repleta de gente com uma carta de recomendação na mão. Comprara esse livro e um do Tolstoi e ignorara o resto. Os escritores russos sempre me fascinaram. “O Mestre e Margarida emprestado de um grande amigo meu. Tenho que pedir novamente. Reler.”
Lamento pelas amizades que as semanas nos levam. Lembro das bolachas da sessão da tarde. Caminho por meus devaneios e confundo o que invento e imagino com o que de fato aconteceu. Escrevo com os pensamentos e volto à minha cama. Lençol escuro. Apago a luz. Retorno à vida, ainda sem fé. Duas horas de sono. Adormece meu mundo.
1/26/2009 Aos amigos que jamais perdemos"...em meio às surpresas dos sonhos, o fim do sossego..."
Tito
Entre a falta de perfeição dos dias, chegam os finais de semana. Eles me vêm trazendo as novidades dos sabores da vida. Em meio às minhas neuroses e desejos - tantos desejos - encontro sempre um espaço para deflagrar a energia que armazeno no bolso e no coração para tão esperados dias.
Entre os que melhor recordo, sempre estão os últimos e aquele particular no qual me reapareceram amigos. Reencontrá-los é como achar uma nota de cem perdida ou que nunca existiu no bolso da jaqueta de inverno. E eles sempre voltam, os de verdade sempre voltam.
Então, a música começa a tocar e a festa continua como se nunca tivesse parado, como se não houvesse nenhum minuto da vida entre o último encontro e a última cerveja e essa que se faz presente.
Foi assim que os reencontrei. Com o mesmo espírito, com a mesma vontade e sede de sempre. Rimos das coisas tristes e declaramos o quanto a vida afasta. Mas ela une também, fiz questão de frisar. Também disse que nada, nem mesmo a tal da vida, leva embora o que nasce em amizade. As recordações permanecem. Aquilo que se compõe do mais intenso da existência não se desfaz, meus amigos.
E assim se foi a sexta, entre abraços e canções. Entre um chope ou vodka, traga mais garçom, nessa mesma mesa, nesse lugar daquela rua estreita que tanta vida acumula na forma de bares. Andar por seus paralelepípedos da entrada e de saída me recordam da Curitiba que já foi declarada perdida, mas que reencontro em amizades.
O sábado também veio, mais amigos com eles. Feijoada de tarde. Família e aniversários quando o sol se põe. No inverno da noite, o Largo da Ordem por perto, mais paralelepípedos. Esse lado mais antigo da cidade traz mais recordações, conversas e abraços de como se fosse ontem. Não passa mais o tempo, nem os dias sem que eu diga a importância de todos.
Acredito que sempre ando tangenciando essas rodas todas de pessoas tão importantes. Jamais fui elo em nenhuma. Já me ressenti por essa minha incapacidade. Porém, hoje aceito e agradeço com o sorriso da pouca maturidade que conquistei na raça.
O fato de observá-los de fora me permite gostá-los ainda mais. Eles me acolhem e aceitam, mesmo sabendo - como eu sei - das minhas características de estranho nessa terra de rotinas de suas sinucas e de suas casas.
Sou da terra do meu próprio lar. Sou do tempo do de vez em quando. Sou assim e gosto das minhas decisões mal planejadas. Eu me aprendi, descobri um pouco mais de mim mesmo nesses anos. Eles, como amigos que são, aceitam. Não são as ligações nos aniversários que jamais lembro ou as partidas de futebol que sempre desmarco ou as viagens para perto em que perco o celular que me definem como amigo, ainda bem.
Eles sabem e, com o conhecimento dessa verdade, chegam as surpresas. E, em meio às surpresas dos sonhos, o fim do sossego. Música. Cerveja. Bar. Abraços. Sorrisos. Amigos. Meus amigos, vamos para a festa para comemorar nosso eterno reencontro.
1/19/2009 Mas sua filha gostava (eu acho)“...a melodia, a paisagem, a transparência da vida,
perdidos que estamos na concha ultramarina de amar.”
Carlos Drummond de Andrade
Essa é a parte menos interessante de uma história de ficção trágica. No entanto, é a parte que vale a pena escrever pela estranheza da seqüência de eventos nela inserida. Tudo começou em um dia de faculdade em que ela entrou de vermelho. Tinha um colar – se é que dá pra chamar disso – que chamava a atenção, junto com seu olhar castanho. Sorria para qualquer um e um desse grupo de pobres quaisquer assustados se tratava de um rapaz ainda ingênuo que, devo admitir, nada se parece comigo mais. Naquele primeiro dia de tanta novidade, tudo me encantava, ou seja, posso dizer que eu estava predisposto a gostar de alguém e de não esquecer o primeiro olhar que ela jamais lembrou no tempo em que ficamos juntos. Não importava. Pelo menos, não parecia importar, mas em se tratando de idealismo essas coisas contam pontos, matematicamente resumindo.
Enfim, dessa manhã se seguiu uma tarde, assim como acontece na lógica temporal dos dias. Nessa tarde me aproximei. Perto dela em uma espécie de comemoração por estarmos ali na universidade. Enfim, essa comemoração envolvia humilhação de nós, pobres calouros. Um ritual que me parecia válido de passar por naqueles dias.
Daí para frente, a vida seguiu seu rumo e das tardes fizeram-se noites diárias até que, em um final de manhã, seguiu-se um almoço, uma peça de teatro e um beijo em banco antigo de praça de tantas lembranças. Era aniversário dela. Namoramos de então até os nossos muitos finais de relacionamento. Lembranças que o final derradeiro deixou comigo, como consolo e cruz.
Demorei um pouco para conhecer a família dessa menina que me fascinava cada vez mais com a novidade dos beijos apaixonados. O dia foi trágico. Alguém havia morrido, alguém da família dela. Não vale a pena citar por respeito à memória dos mortos que jamais conheci.
Como bom moço, fui abraçá-la no cemitério Parque Iguaçu. Nunca havia ouvido falar. Perguntei ao meu avô. Ele sorriu com minha disposição pela bela e me deu as coordenadas. Passei por dentro do parque Barigüi. Não chovia. Uma entrada em meio às árvores e curvas. Não tinha certeza de caminho nenhum. Segui apenas porque meu avô havia dito. Cheguei e a beijei com carinho. Apropriado e preocupado. Ah, sem esquecer que eu estava morrendo de medo de conhecer a família. Ocasião funesta, devo admitir. Foi assim, fazer o quê? Fato destacado sem embaraço por uma das suas muitas irmãs. Disse oi para todas. Oi também para a mãe e o pai. Claro que não poderia dar certo. Imagina só quem conhece os pais da namorada no cemitério e vive para se tornar genro. Pouco provável, eu conheço os fatos. Sem ressentimentos.
Enfim, nesse dia, tive a impressão que o pai dela não gostou de mim. Não era pra menos. Eu daria razão para ele nos dias de hoje. O cara preocupado com o enterro e aparece um intruso beijando a filha dele. Claro, com carinho apropriado, eu sei, mas mesmo assim deve ser de foder pra um pai.
Ele era desses sujeitos taciturnos. Nunca escondeu a falta de simpatia por mim. Trocou poucas palavras comigo ao longo dos anos de relacionamento. Claramente me evitava. Coisa da minha cabeça? Vamos aos exemplos: viagem e o intruso – no caso eu – com a família. Ele ficava a maior parte dos momentos em que eu estava em casa conversando com os vizinhos da outra casa: crianças na maior parte. Preferia os infantes ao namorado da sua filha, escolha óbvia. Aliás, não posso ser injusto, nessa viagem ele falou comigo: pediu para eu lavar a grelha da churrasqueira. Uma beleza de sogro. E o pior de tudo é que eu gostava do cara. Ele tinha seu jeito ensimesmado admirável e cuidava das filhas e da família como eu não estava acostumado. Adorava ver aquilo, principalmente por sua noção de justiça: não gostava de mim e não tentava agradar, disfarçar ou qualquer tipo de hipocrisia. Devo admitir, era torturante sentar ao seu lado nos domingos de sofá azul e televisão. A programação ruim e o silêncio. Depois de uns meses, eu até parei de tentar puxar assunto e vivi uma grande piada inventada por um apresentador ruim de televisão em seu momento de improviso patético. Porém, o cara era genuíno e a filha dele gostava de mim. Eu acho.
E escrevo isso hoje, pois a história – da mais pura invenção da minha mente doida – me veio à cabeça hoje quando visitei o mesmo lugar em que o conheci. Não foi só essa lembrança que me apareceu. A recordação da saudade meu avô com todas as coordenadas da vida com certeza foi a mais forte. Por isso mesmo, decidi escrever a mais engraçada.
1/18/2009 Volta às letras, voltam as letras
Mas outras vezes, mesmo de dia, mesmo acordado, mesmo de olhos abertos (ou fechados, tanto faz), ele espia para dentro. E aí vê coisas que muita gente não consegue ver. Ana Maria Machado
Sem direção, chegaram ao fim os dias de descanso. Como quem nunca escreveu, passei em memória minhas letras e refiz em lembranças minhas páginas em branco. Levantei, bebi e sorri como criança inconseqüente de tudo e de todos. Não medi perdões, frases e abusei das proparoxítonas. Sem saber de nada, desfiz e refiz quem sou. Aproveitei das situações decisivas para ser evasivo e abusado. Ah, nada de especial e um tudo na medida do meu viver. Quem me viu e quem me vê sabe, como o Chico saberia, que não se reconhece quem estranho soa aos olhos e ao passado. Aliás, revistei minhas memórias e passei por tempos idos com a saudade que o Machado diria que deixa um quê de gozo e de dor. Atos cometidos como pecados dessa grande janela para o mar e que cabem no breve espaço de beijar do Drummond. E se o Carlos já sabia disso, aprendi com suas páginas e mais algumas de alguns sujeitos como o Ernest, o Jack, o John, o Leon e os milhões de contos ao pé de ouvido de uma mitologia sonhada em dias de lençol com perfume em fins de semana de devaneios. Que sempre fique esse sentimento de tranqüilidade desses meus 26 dias, mesmo número do mês quatro ao meio-dia e quinze. Que depressa passe tudo que odeio sem rancor e que se prolongue o convívio de quem amo e dos lugares nos quais permanecem pedaços de minha alma. Alma perdida em pensamentos que se vão ao sabor dos ventos e dos perfumes. Perfumes da vida que se esvai na medida menor em que é desfrutada. Sobram minutos e com eles vem o conhecimento. Sem livros ou autores. Aparecem do mesmo sentimento que respiro da janela na volta para casa. Ao que é conhecido e adorado como santos ao pé do altar. Mãos postas em sinal de contrição contraditória sem arrependimento ou vontade de pedir perdão. Novamente faria tudo e, até mesmo, o muito mais que sempre sonho. E, já que ainda não escrevi do brilho do olhar, que o meu nesse ano de 26 nunca feneça.
11/17/2008 Ser de amargarCarrego no meu peito uma sensação de constante desencaixe. Parece que, onde quer que eu esteja, não encontro a paz dos outros, perto ou envolta deles. Sinto que não há nada e, ao mesmo tempo, parece que tudo consigo com a facilidade de um farsante. Encontro nas páginas o que quero muito rápido e ando com as multidões desejando, almejando que todos me olhem e que eu mesmo me aceite como um só. Um qualquer. Um nada. No fundo, sei bem para onde vão as peças do tabuleiro após terminado o jogo. Enxergo com a clareza da luz de sol reto nos olhos do horizonte de final de tarde a importância da simplicidade, da humanidade. A distinção e beleza dos pontos de vista diferentes me fascinam. Olho como criança cada descoberta e aprendo a ouvir mais do que falar a cada dia que passa. Evoluo porque escolho tal caminho e me debato com coisas que me incomodam. Nem sei bem o que, acho que a impessoalidade que o mundo ganha com as aparências, com as ambições. Aspirações humanas que também conservo e que não nego. Não há orgulho, no entanto. Existe apenas confusão em meus olhos, quando vejo aplausos ou palcos iluminados por prêmios, egos e falsas declarações. Não sei explicar essa parte, mas faz parte dessa sensação de constante desencaixe que trago no peito.
Soa-me como apelo irônico do destino que muitos confundam o meu jeito de olhar como algo agressivo, antipático e detestável. Meus olhos são daqueles que perscrutam o mundo meu e dos outros. Meu jeito não traz arrogância, embora a transpareça para aqueles que tratam meu carinho por aprender e ensinar com despeito. Há muita avareza nessa terra. Avareza de tudo e de todos. De posses e conhecimento. De paz e de guerra. Também vivemos num universo de incoerências climáticas e de atitudes. A competição constante e a vontade que temos de atrair o mérito e a vitória para perto do nosso nome nos transformam em monstros em um pântano de vaidades. Eu procuro pular isso. Acredito que minha naturalidade com as coisas que me conferem o ar de arrogância. Creio que não há beleza em botes, iates, carros importados, títulos e ortodoxias misturadas com pompa e estilo. Não troco nada pela genuinidade: das coisas, das comidas, dos gestos, das gentes, das cenas, das músicas e das letras. Coisas que me sensibilizam e que só fazem aumentar essa sensação constante de desencaixe que trago no peito.
Trazem também consigo, como que queimando, a solidão de caminhar. Entre tanto, tão pouco. Não sei explicar também, como muito do que eu escrevo. È mais para aliviar a minha alma dos momentos em que, passo a passo, piso sozinho em salas e corredores. Sinto que não sei quem sou. Não pertenço. Não existo de fato. Apenas sou eu mesmo. Incomodo aos outros e vejo isso nos olhares. Desconcerto-me em cada esquina e aprendo em cada tropeço. Vivo como louco, delirante e solto. Vivo preocupado com o futuro e passado. Existo no presente. Subjetivo. Cheio de desejos e de vontades. Sou sangue e energia. Sou muito pouco perto do tamanho e importância dos atos, fatos e pessoas que carrego no peito. Bem no fundo do peito, junto com a sensação de desencaixe.
Quando não ando com ninguém na hora do almoço, quando trabalho que falo pouco, quando chego em casa sozinho, há um nada tão grande que começa na boca do estômago e chega a esse peito marcado. Vem junto com o desejo de explodir, gritar, sumir. Acho normal sentir essa dor. Não há esperança que baste para me sustentar. As promessas de um futuro mais acolhedor e de paz e risos não passam de aspirações. Pessoas malucas que repetem erros pensando no novo dia de amanhã. Porém, em todos os outros dias que chamamos de ontem que já vivi apenas encontrei essa mesma sensação de desencaixe em meu peito.
Nada vejo. Paro de escutar. Vivo perdido. Corro para cantos e me atrapalho cada vez mais. Magôo os outros com a facilidade de um matador de aluguel. Piso em ovos com quem está mais perto e menos pronto. Apenas sonho. Penso no amor que nunca vivi. Nas paixões que apenas desejei. Nas mancadas que vivo cometendo. Nas cervejas que já bebi. Nos abraços que neguei. Nos beijos que perdi. Na preguiça da manhã, tarde e noite. Nas amizades que não me valeram. Nas poucas horas de descanso. No descaso das pessoas com o mundo. No muro de lamentações da irracionalidade humana. No planeta que sangra. Nas pessoas que se afastam. Nas falaciosas promessas de sentimento eterno. Nos bons filmes. Na arte perdida. No que ainda se pode encontrar de arte. No timbre de voz. Na sutileza das palavras. Nas minhas letras. Nas nossas cartas de amor desperdiçadas. Nos anos perdidos. Na falta de chão. No frio na barriga que senti pela última vez quando criança. Nisso tudo e no amargo que carrego no meu peito por conta dessa sensação. Eu, simples, desencaixado do todo, do resto, do que importa e do que existe ainda menos que a unha do meu dedo do pé.
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