![]() |
|
Spaces home O Fantástico Mundo de Fe...PhotosProfileFriendsMore ![]() | ![]() |
|
O Fantástico Mundo de Felipe Belão IubelO mau humor sarcástico e a intensidade fantástica do meu alterego torto.
8/27/2008 Encontro com minha própria solidãoEla me pediu uma frase. Comecei com um poema e ela disse que havia algo de errado na escolha.
- Quero ouvir algo seu.
“Somei uma porção de palavras e de letras e encontrei os momentos já vividos. Revivi-os em plenas cores, sofás e brilhos no olhar. Não os desejo novamente e não pretendo apagá-los. Que fiquem no passado e que sirvam de base para que um dia, quem sabe, eu viva de verdade.” Falei espontâneo e perscrutando sua expressão em busca de reação, simpatia ou desejo.
Ela repetiu minhas palavras. Soou triste e errado. Eu ri para preencher o momento e tomei um gole da vodka com água tônica.
- Que tipo de porcaria você bebe?
“Vodka com tônica.” Ela disse com aquela arrogância que tanto me irritava. “Como ela pode viver sabendo tão pouco?” pensei comigo.
- Vou pedir uma cerveja – eu disse desacorçoado.
- Não, tome comigo. É só um copo. Quarta não é dia de festa ou de extravagâncias.
- Você e suas regras de mulherzinha.
Que tipo de frase estúpida de se dizer. Porém, na maior parte do meu tempo nessa terra, falo coisas sem pensar direito. “Tudo bem, quem me conhece já sabe. Quem não me conhece pouco me importa.” Até meus pensamentos soam impensados quando os escrevo.
- Vamos passar a noite com nossas discussões?
- Não, sabe, prefiro minha casa por hoje.
- Comprou filmes no almoço.
- Dois DVDs.
- Você e seus filmes. Não os troca jamais pelo contato social.
- Sou um cara fiel.
- Fiel ao que? Aos pedaços de plástico ou sabe-deus-o-que com imagens e sons gravados?
- Corrigindo: belas imagens e belos sons gravados. E pelo menos sou fiel a alguma coisa.
- E o que exatamente você quer dizer com isso?
- Não vamos discutir o passado.
- É, não vamos mesmo. Até porque você sabe de seus próprios erros e faltas.
- Eu sei. E prefiro chamá-los de deslizes.
- Erros, faltas, deslizes. Eu acho que você cometeu os três. Parece esquecer dos últimos dias. Nossos últimos dias. Você faz idéia de como eles foram tristes?
- Você sabe e, se você quiser repetir pela milésima vez, o barman pode saber. Então, eu aproveito e conto para ele o quanto sua companhia é meu único consolo em dias como esse.
- Você não tem coragem de ser sarcástico com garçons.
- Não seria sarcástico, nem irônico.
- Eu não sirvo para você, Tito.
- É o que eu repito em frente ao espelho antes de você chegar sempre.
- E por que não pára de me ligar?
- Não tenho ninguém melhor para conversar.
- Sou uma questão de falta de opção para você então?
- Sempre foi, assim como eu para você.
- Isso é triste.
- Todos esses dias são.
- Não faz drama.
Respondo com silêncio. Ela sabe o porquê.
- Já disse pra não fazer drama.
E quem desaparece sou eu. Restam apenas ela, um bar qualquer e um copo vazio.
8/21/2008 Saudade do Caymmi da Bahia“Meu irmão Caymmi eu gostaria
de ouvir sua poesia
nos contar sobre a canção do pescador.
Vamos navegar no mesmo mar de nostalgia
e lembrar o dia
de uma pescaria em Salvador.”
Confesso que tenho saudade. Saudade do tempo em que os quintais verdes das casas dos bairros e vilas tinham árvores floridas cuidadas pelos meus avôs. Tenho saudade desse tempo que só posso descrever, como cantaria o Chico, como tempo da delicadeza. E, pensando nos mestres, tenho saudades de tempos recentes em que o João era Valentão, em que todos queriam muito bem a rosa e até da lagoa escura do Abaeté. São palavras e canções que, assim como eu, sentirão falta da voz e da simplicidade do Caymmi.
Aliás, a simplicidade do Caymmi morreu com ele. Esse mundo perdeu para sempre essa característica do homem que, como ele mesmo cantava, não precisava dormir para sonhar. Eu já tenho saudade da Bahia cantada pelo Caymmi. Agora sim, a paisagem se tornou inútil. Perdeu-se um tesouro nacional dos mais fantásticos. Entristece-me que muitos não percebam a beleza do seu jeito de baiano na rede e violão. Esses filhos de Oxum. Como se pode ignorar letras que tocam na alma e reverberam pelo coração, transformando as veias em melancólica simplicidade, num misto de beleza e de olhares fixos e atentos para as coisas que realmente importam?
Redes ao mar. Vozes de tristeza. Saudades intermináveis. Bandas militares e a Dora passando. Iemanjá e as orações pela mãe menininha. Por tudo que é sagrado, esse é o genuíno objetivo de se escrever ou cantar alguma coisa: tocar os corações do jeito que esse homem fez. Não vejo nada mais louvável para uma vida. Não enxergo nada mais poderoso do que saber que se fez diferença na vida e no olhar dos outros para o mundo. Grande diferença. Fica agora sua voz, sua obra, minha saudade. Fica a doçura e a incomparável beleza do fim de quem viveu como se deve.
8/18/2008 Rede de relacionamentosDeitado naquela rede, a parede e o chão de meu mundo desapareceram. Não por falta de apego à vida ou de vontade de coisas e situações. Uma simples mistura do que havia de melhor e mais cheiroso no ar daquilo que chamavam de natureza com o som da tranqüilidade da solidão. A mesma tranqüilidade que me faz gostar tanto da reclusão e das poucas palavras e que, em dias de rede e paz, transforma-se em tormento para meu pensar. O cheiro de mato e da umidade das árvores à vista, ao alcance das minhas mãos que parecem tão pequenas diante de criação e vento, traz para perto a melancolia de um fim próximo. Não sei exatamente qual é o fim, fim do quê. Só sei que parece que acabará em breve, num desejo mal pensado ou numa rotina rejeitada. Acabará em tormento, talvez temperado com o sal de lágrimas tristes e que ninguém enxerga, mas estão por lá. Como a presença que ninguém vê e apenas sente a sombra passar no mesmo formato do meu vento de mato que a natureza impõe e mantém ao redor invisível e indivisível. Pensável apenas para aqueles que o vislumbram com o coração metafórico dos sentimentos mais mundanos e imperfeitos. Palpável jamais. Então, do seu bafo assombroso e gelado faz-se presente a saudade de algo que talvez em um relance ridículo de um passado tão esquecido em outro tipo de vida e de existir tenha acontecido. Queria dissociar isso do presente do descanso na rede. Porém, é disso que se trata minha realidade ali ou em qualquer canto. Não há como fugir do que nos assombra em meio às nossas patéticas negações para o mundo. Amém, com ou sem meu consentimento.
Levanto dali e deito em outro lugar com essa perdição em minhas mãos. “Eu sou veneno, meu mundo.” Minha solidão se multiplica. Toma forma de corpo de mulher ao meu lado. Eu a abraço em desespero. Sinto minhas juntas doerem, meu sangue arder. Aconchego-me em seus braços inertes. Ela me sorri e me traz lembranças tristes. Transforma o tempo e o espaço em um só varal contínuo e me transporta para lá e para cá sem se importar com meus gritos e lamentações. Ela me diz: “Respira e vive.” Ri de forma sádica e eu a desejo mais e aperto contra o peito em puro êxtase da razão de viver. Das lágrimas, ela incorpora mais força e seu corpo se torna ainda mais escultural e luminoso. Eu relaxo meus músculos e me vou para longe, percorro o varal de ponta a ponta e volto para a rede de meus próprios relacionamentos. Festa do que foi vivido. Pesar do que foi pensado. Tristeza do que foi idealizado. Resta pouco e me falta ar. No entanto, descubro que não preciso mais de oxigênio para viver. Bastam-me as letras e as páginas vazias para meu embate titânico com o mundo fantástico. Eu amo o mundo, assim como a amo. A solidão o traz para mim como forma de oferenda. Seu sorriso sarcástico permanece e se acentua quando percebe o brilho de esperança em meu olhar. Caio por terra outra vez e sinto meus pulmões implorarem por socorro. O sopro de vida faz arder minhas tripas. Logo, tudo se perde e volto para meu gelo de vento e para minha rede de mato. Não há como fugir do que nos assombra em meio às nossas patéticas negações para o mundo. Amém, com ou sem meu desejo.
8/11/2008 Crônica da coisa que faltaFalta alguma coisa. Trata-se de uma sensação que demora diminuir e, quando acontece, não desaparece por completo. Culpa da combinação do final de domingo deprimente com a segunda cinza de manhã. Culpa disso e de outros fatores. Fatores concretos, cenas imaginadas, carinhos desejados, paixões mal escolhidas, brilhos no olhar inadequados, mensagens sem resposta, e-mails ignorados, idéias perdidas, insatisfação constante, dificuldade em gostar de alguém e a mais completa ausência de retribuição quando se ensaia algum movimento mais interessante.
Bom, vamos recapitular o fim de semana todo. Sexta-feira de noite com boas aulas e depois jantar gostoso com vinho e conversa boa. Amigos, família, pizza, emocionante programação da competição de trote na parte “hipística” da olimpíada. Sábado de feijoada e bossa nova. Mulheres bonitas, Tom, Chico, Vinícius e mais um pouco de Nara Leão e outras. Domingo de jogo com três gols e estádio cheio. Verde em profusão, palavrões atirados contra o juiz, risadas sem fim e comemoração interminável.
Aparentemente nenhum motivo para lamentações. Ok, mas lá vai. Sinto falta de alguma coisa que não tenho. Não sei se já tive apropriadamente. E claro que, quando se começa a falar nesse nível de mensagem criptografada, trata-se do tal da vida amorosa, do amor, da paixão, do tesão, do carinho, do abraço e mais essas coisas todas que fazem tanta falta. Tem gente que tem vergonha de tratar dessas temáticas mais pessoais. Eu, ao contrário dessa gentinha, tenho de sobra coragem e imprudência a ponto de sentenciar: esse troço me faz falta.
Meu edredom parece grande demais, assim como minha cama. Sobram travesseiros por lá e parece que faltam abraços e carinhos. Beijos apaixonados de verdade fazem parte de uma lembrança distante cujo gosto não sou mais capaz de recordar com clareza. Não tenho com quem compartilhar as conquistas boas da vida ou em quem segurar a mão para fazer as visitas agradáveis e desagradáveis dos fins de semana. Acabo não fazendo e sorrindo menos e penso que tem alguma coisa de errado com a percepção de mundo das mulheres pelas quais me interesso.
Não que isso aconteça com facilidade. Nutro algumas paixões de ocasião que me chegam e desaparecem com a mesma perenidade de uma chama sem nexo ou lugar. Porém, de uns tempos para cá tenho trabalhado aspectos que me fazem ser tão fechado para esse tipo de coisas. E falo isso sem aquele desespero das pessoas que querem arrumar alguém a qualquer preço. Pelo contrário, sou exigente demais e busco qualidades que nem sempre se encontram combinadas em uma única mulher.
No entanto, há uns meses, encontrei uma pessoa que despertou meu interesse de um jeito um pouco mais duradouro e com mais sonhos e alguns frios de barriga inéditos e borboletas em extinção na luz da varanda – como diria uma grande amiga. E eu me perdi nessa sensação nova. Literalmente me perdi em um labirinto sem respostas e de muitas negativas. Por que insisto? Nenhum motivo aparente ou concreto que não esse sentimento de um anzol que me puxa pelo umbigo cada vez que a encontro.
Lembro-me logo de músicas sobre a beleza desse estado de sincera e despretensiosa paixão. Deixo que esse negócio gostoso tome conta das horas vagas de minha rotina e deixo que essa vontade de sentir de perto o cheiro da pele e o gosto dos lábios se torne meu grande fator motivador para acordar e viver, dormir e sonhar. Porém, em seguida a trilha sonora muda e fico com “You Can't Always Get What You Want” na cabeça. Chego a enxergá-la com a tal taça de vinho na mão e tudo mais. O vazio de não chegar perto de quem me chamou a atenção dessa forma polui todo final de domingo e faz com que a segunda cinza seja ainda mais sofrida que o normal. O resultado é que sinto falta de algo que nunca tive. E o mais maluco de tudo é que essa falta surge do sentimento intangível por uma mulher que é de duas, três: muito difícil, não está nem aí pra mim e/ou joga um jogo impossível de decifrar.
Então, daqui pra frente, decidi que não vou planejar passos e nem fazer promessas que não posso cumprir. Que tipo de promessas? Ah, essa coisa de não mandar mensagem depois de ter tomado umas cervejas no jogo de futebol e coisas do gênero. Convites recusados, textos escancarados, sorrisos embaraçados, olhares apaixonados, declarações vãs. Vou continuar fazendo essas cagadas, claro, afinal sou um ser humano com todos esses defeitos e fraquezas. Porém, vou tentar não me importar tanto com a falta de resposta e com o silêncio que me atordoa pela falta mais completa disso que nunca tive.
8/6/2008 Buraco no céuOlhei para o céu e tinha um buraco azul claro em meio ao amarelo e laranja quentes da estrela que brilha discreta por detrás dessas nuvens. Era como se um fator desconhecido no espaço e tempo esperasse parcimonioso por algo prestes a acontecer. Um movimento qualquer nos ventos que insistiam em uma paralisia inexplicável. Tudo isso pouco significava, mas era bonito de se olhar.
E, nesse mesmo dia do buraco azul claro no céu, percebi - para minha surpresa - meu mergulho inconsciente no lado profissional. Notei abismado que eu abandonara tudo que de titânico conservava importância em meu espaço de vida. Claro, pura fuga. Parecia que eu corria novamente assustado do pastor alemão que insistia em assombrar o campo de futebol perto da igreja da vila em que cresci sem amigos.
A descoberta tinha causa e, se eu e o Tito pensarmos bem e revisarmos essa vida de criador e personagem que é uma só, é bem capaz de percebermos que a tal da causa tem nome. Como é difícil crescer e escolher enfrentar e superar os problemas. Parece que, durante alguns anos, ainda passarei consertando os anteriores. E têm muitas cagadas pra limpar dessa história toda. Há lembranças demais pra re-significar. Sentimentos fortes para lutar com ou contra. Remar e caminhar se torna difícil, por isso mesmo mergulho na carreira e olho, de quando em quando, para o céu com seu buraco azul.
Passo meus tediosos dias dando esses milhões de passos para a direção oposta da vida. Tudo para que, quem sabe, eu consiga trilhar com conteúdo e no caminho dessa utopia de ética e de nobreza que eu insisto em aspirar a. Grande maluquice da minha parte, eu sei. Porém, faço isso com a sensibilidade dos olhos abertos. Mais que isso, caminho sem grandes expectativas. Faço isso até porque a batalha que estou travando nesses dias de buraco no céu só faz aumentar a solidão, pois apenas nesse ambiente inóspito de pouco som e nenhuma gente é que posso resolver essa querela.
Aliás, essa solidão de sentimento me arrasta para o meu onírico isolamento. No entanto, para que serve tanto sonho em tamanho vazio de desesperança? Dizem que quem almeja voar e alcançar ao céu pensa grande o suficiente para crescer. Mas eu não tenho certeza de que esse céu é o mesmo céu de hoje, com o buraco azul. Ninguém pode assegurar. Ninguém pode. Ninguém.
Mulheres, livros, filmes e músicas. Tudo importa tanto nessa medida. Não há resposta, porém, para os milhões de sons diferentes que tocam em harmonia. Não há menos de 10 filmes em rodízio no Top5 da estante. Não existem palavras melhores que as já escolhidas pelos grandes autores. Não existiu outro grande amor. De tão pouco e que é ao mesmo tempo mais do que muita gente encontra, resta-me meu céu com o buraco azul.
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
|