| Felipe's profileO Fantástico Mundo de Fe...PhotosBlogLists | Help |
|
O Fantástico Mundo de Felipe Belão IubelO mau humor sarcástico e a intensidade fantástica do meu alterego torto. 6/12/2009 Há algo de insano no reino de nossas cartasCara amiga,
Não lhe chamo mais de estranha, pois as letras aproximam a ponto de não nos desconhecermos mais. A informação pertinente a respeito do apreço etílico também nos conduz a uma linha de pensamento para lá de ousada em termos de intimidade, ou seja, dessas coisas que importam de verdade, já sabemos.
Ainda assim, penso muito – até demais – que o jazz tem peso ainda maior. Só que isso não é assunto leviano qualquer para abordarmos em parágrafos curtos de cartas que poucos lêem. Guardemos, portanto, para a pessoalidade.
No mais, sinto que há algo de insano no reino de nossas cartas. Ou no texto. Texto. Carta. Reino. Enfim, deu pra notar que você não é daquelas pessoas chamadas de “normais” pela imensa maioria equivocada, mesma maioria que aprova o governo barbado. É engraçado que essa excentricidade nos aproxime ainda que não-geograficamente. Geralmente, essa é uma característica que me leva a não me achar em meio a esse bolo de coisas que não entendo no pensamento alheio e que leva os que me cercam a não me olharem com lá muita simpatia.
E, já que comecei a cartear a respeito, devo insistir que a insanidade e a falta de normalidade é um negócio interessante de conviver com. É como se eu tivesse que fazer de conta em vários momentos pelo meu bem e dos outros. Meu bem, eu digo, no sentido de manter emprego e coisas do gênero. E quanto ao bem dos outros, não me refiro a nada que ultrapasse o limite das leis – não sou psicopata, sociopata ou qualquer desses tipos de patas – mas simplesmente para eu não sair dando uma de Zaratustra ou de narrador da jornada do último cavalheiro do apocalipse.
Ainda assim, sou exagerado confesso. Apaixonado declarado por essas letrinhas que insisto em juntar. Crônicas, cartas, livros, contos, bobagens e parangolés. Escrevo ao mesmo tempo ou já tentei escrever em vida, sono, princípio ou desejo. Sou desses. Não há jeito. E, como diria o velho Buk, é um troço que nasce com você.
Respondo, portanto, sem outra escolha. As letras me convidam e, se as minhas chamaram as suas, tanto melhor.
Tito. 6/10/2009 Cartas às estranhasCara ex-estranha,
É engraçado pensar que se renovam os laços com quem jamais conhecemos após um breve (re)apresentação formal. Jamais nos distanciamos, se pensarmos bem no assunto. Fato esse que depõe a favor da nossa amizade.
Bom, vamos aos fatos ou à simples falta deles: não tenho muito o que dizer. Imagino que, mediante alguma resposta sua, talvez, o conteúdo me salte à frente da imaginação. O que é apenas criado passará então à realidade e quem sabe uma descrição linear das coisas. E você sabe como são as coisas.
O que posso dizer por hora é que a possibilidade de um papo, um jazz e um destilado me parece atrativa o suficiente para que eu jamais negue seja qual for a ocasião escolhida. Tenho um fraco para essas coisas, mas devo frisar que o destilado não é minha bebida. Os fermentados sempre fizeram parte da minha rotina familiar. E sou um conservador quando o assunto é família.
Entretanto, preciso que saiba: sou mais fã do mistério que da verdade. Procuro a realidade inventada que foi profetizada pela Clarice e me confundo com meus próprios mundos criados pelas mentiras contadas pela minha imaginação fantasiosa.
Por hora é isso. Não suma e responda, ou não. Fecham os ciclos e as cartas, mas nossa amizade permanece a mesma.
Letra após letra.
Tito. 4/13/2009 EpifaniaEle, por alguns instantes, viu o mundo de cima.
Todos estavam lá, em seus pensamentos. O que havia de pensado, vivido e acontecido se encontrava lá. Então, revirou-se na cama como quem remexe no próprio passado. Sacudiu o presente e fez planos para o futuro próximo e para o distante.
Esse era seu jeito de fazer as coisas acontecerem. Programar antes lhe parecia reconfortante. Soava como uma certeza da prioridade para o próximo passo.
E ele seguia. Mexia-se em sua cama, levantava de quando em quando, mas permanecia com o corpo estatelado, estático e parado. O movimento se dava apenas em consciência.
Ele, por alguns instantes, viu o mundo de cima.
Logo, pulou-lhe o primeiro misto de memória e de devaneio à mente. Havia sol. Entrava pela janela da infância. Lá fora, o quintal da casa de seu avô. Sua avó ainda viva ali, ao seu lado. Ela e aquele sorriso doce que reservava apenas para ele. O sorriso entrecortado pela tosse tuberculosa do pulmão doente. Ela mexia em algo do quintal e ele corria de um lado para o outro, sentindo-se protegido e indestrutível. Corria como se fosse o mais veloz dos meninos. Chegava próximo à felicidade antes desta lhe escapar em preocupações que não deveria conservar naquela idade. Ela lhe falava. Dirigia-lhe a voz terna e sincera das avós que amam.
Outra memória. Ele escrevendo. Escrevia madrugada adentro em seu computador velho. Trocava textos e elogios com pessoas que ainda não conhecia direito. Ele não se conhecia. Não acreditava em elogios e as ofensas o destruíam. Continuava menino.
Mais uma. O dia em que várias pessoas morreram, ou melhor, todos os dias em flashes rápidos. Sua reação em cada morte. Seu jeito de fazer para não encarar as coisas. Seu jeito de viver a excitação da perda antes que a tristeza tomasse conta. Sua fuga inofensiva do luto eminente.
Entrevistas de emprego. Momentos no trabalho. Novos desafios. Seus dias em sala de aula, sentado ao fundo. Seus dias à frente da aula. Seus dias de outras cidades, de praia, de prédios, de areia, de cerveja e de música. Suas horas mais agitadas se transformando em nada, na tranqüilidade do nada.
Espalhou ao mundo o amor que conservava pelas pessoas que admirava. Descobriu quanto amor podia sentir ao mesmo tempo. Descobriu a tristeza da falta de propósito. Mergulhou em pensamentos sobre suas escolhas e enxergou a diferença do caminho das opções corretas. Censurou a si mesmo pela fraqueza da alma, pelo apetite perdido, pelas preocupações que não envolvia humanidade.
Tão vazio era seu discurso quanto seus pensamentos. Tão vazias suas escolhas diante da fragilidade dos dias, da incerteza do tempo. Não questionou nada dos rumos tomados no passado. Sentiu saudades aterradoras de quem não se ouve mais falar.
Sanidade parecia uma questão de mera opção. Resmungava consigo mesmo.
- Tão estanho esse mundo. Tão vazio e, ainda assim, passamos tanto tempo nos preocupando por nada.
E, por alguns instantes, viu o mundo de cima.
Concluiu que o propósito é algo que se perde ao despertar.
4/3/2009 Na aridez do pensamentoBetween the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
T.S. Eliot
Ano vazio. Nada de progressões aritméticas ou geométricas de desenvolvimento. Acho engraçado que justamente no vigésimo sexto ano, número que coincide com meu dia do mês de abril, eu não progrida nos degraus que quiçá me conduzem ao além-homem-mundano descrito pelo Nietzsche.
Sinto que sentei em uma cadeira confortável nesse primeiro trimestre. Minhas nádegas começaram a formigar e, ainda assim, não me mexi. Por comodismo ou pela inércia provocada pela rotina. Os motivos são diversos. Olho no espelho e, como em qualquer clichê literário, não me vejo. É como se, em minha consciência livre, eu tenha evoluído. Porém, estou sentado à beira de um degrau. Estático. Imóvel. Apenas observo com parcimônia o vento e o abismo.
Minhas escadas são suspensas. Não se ligam ou apegam a nada e não conduzem a lugar nenhum. Há vermelho na atmosfera. O ambiente é árido. Não há transeuntes. Apenas minha imaginação, personagens da minha memória. Não olho para enxergar. Apenas sei das coisas. Os perfumes e cheiros fúnebres me chegam como numa sensação doida de torpor. Não me importo. Olho a paisagem e me embriago com minha própria vista. Aquilo me pertence na mesma medida que me domina e possui.
Sou um escravo das escadas agora. Neste ano de reflexão e mudança no mundo, penso. Atento a tudo. Mudo minha opinião, percepção e direção. Evoluo em suspiros de imagem sem ação. Fujo dos atalhos. O que me interessa é a evolução do caminho percorrido. No entanto, não levanto do meu degrau. Degrau de meses, de sentimento de tempo perdido.
Lembro do meu eu-menino e tenho saudades, mas deixo que me passe até que se eleve, transformando-se em outra imagem de minha adolescência que culmina no começo da juventude com a faculdade e a descoberta do amor que vem junto com o sofrer do rompimento cuja força me revira as vísceras apontando para especialização e mestrado até as salas de aula em que plenamente penso e sinto a vida que se esvai na medida em que tudo isso acontece em paralelo com o meu eu-corporativo e com o amor que confio à minha família que se reúne no sábado e todo domingo, mas, de uma hora para outra, vejo que acordei numa das manhãs das minhas quatorze horas e meia de trabalho diário e vejo a preguiça que me é como um indicativo cinza e triste de que estou estagnado neste maldito degrau.
Converso. Escrevo. Desabafo. Sinto que as paredes se aproximam. Sinto que ocupo um corredor vazio no mundo e, de imediato, transporto essa consciência-livre para a aridez da escadaria de ar e vento vermelho. Vejo que a paz é feita de enxofre. Quanta paz encontro nessa solidão de minha própria reflexão. Fujo, corro e volto. Volto para o deserto das minhas escolhas. Em menos de uma manhã insone penso em tudo isso e vejo, sinto minhas nádegas formigando. Eu e meu maldito degrau.
3/24/2009 Quem mandou escolher a vida?Pisei em falso. O primeiro passo nunca quer dizer nada. Não há certeza nos movimentos iniciais. Porém, o segundo, terceiro e todos os seguintes trouxeram consigo a tontura torturante do labirinto. Do labirinto da vida. Do emaranhado de idéias, pensamentos e tentativas. O dia passou devagar. Fiz de mim mesmo alguém mais forte do que jamais cheguei perto de ser. Resisti. Não escondi. Não há vergonha em meus defeitos. Não disfarço quando me perco no labirinto do meu ouvido médio.
O chão oscila sob meus pés. A plataforma que já foi firme me invade a alma com olhares que não me constrangem. “Sou mais forte.” Repito coisas em minha própria consciência até que elas se tornem verdade pálida em minhas escolhas. As escolhas, tudo que tenho.
Subi e desci escadas institucionais – as mesmas escadas que ligam o mundo dos vivos ao dos que já se foram. “Quantas lembranças.” Agarrado ao corrimão, não havia temor em meus movimentos lentos. Apenas ecoava longe o grito da torcida. Levei um, levei dois gols numa partida que acaba em três. Eu ainda não havia marcado nem mesmo um. O zero ao meu lado.
“Bom....”, eu pensei, “...nesse caso não tenho nada a perder.” A vitória já me escapara pelos dedos. Qualquer coisas que se conquista quando se está próximo de ser abatido – pela vida, pelo vento, pela volta – reluz em dourado. “Não espero mais nada de você, Deus-Rapaz-menino-perdido.” Inspiro e transpiro palavras fortes que não me fazem nada além de sentido estéril.
Não há tristeza. Minhas lágrimas secaram. Não há mais fé em meus pedidos. Resta apenas o que sou. Mais forte do que nunca, pois a pobreza da esperança me deixou. Despido disso e de traços, jogo para trás meus cabelos. Prendo-os pelo ouvido e caminho. A paz transborda de meus olhos e inunda meus gestos para com o mundo. Não há perfumes.
Sou eu mesmo, sozinho e atento. Triste quando a tristeza me conduz pelos braços. Feliz quando alguém se aproxima. Resistente quando por meu nome chama. Disposto para quem merece. Um terreno perigoso, alguns diriam. Uma surpresa. Uma decepção. Genuíno em minha auto-análise. Distante, sem dúvida. Inconstante, como tudo que vive. Isso porque, acima de tudo, vivo. Decidi viver noite passada.
|
||||||||||||||||||||||||||||||
|
|